Enunciado
S. Exa., o leitor
Deus é testemunha de que nada tenho contra os leitores. Pelo contrário, se não existissem esses
seres abnegados, não haveria livros nem jornais, e eu teria morrido de fome há anos. Mas vamos e
venhamos, não podemos nos escravizar a eles, bajulando-os, procurando adivinhar o que pensam
ou desejam. Ao contrário dos restaurantes e dos balcões comerciais, nem sempre os fregueses do
nosso produto têm razão. Leio com atenção as cartas que as Redações recebem. [...] Raro é o dia
em que não aparece um leitor furibundo comunicando que não mais assinará nem lerá o jornal por
causa de um editorial, uma notícia ou um comentário que ele não aprovou.
Trabalhei durante anos num jornal que até o dia 1º de abril de 1964 criticava o governo de então.
Veio o golpe militar e já no dia 2 o jornal passou a criticar o novo regime que se instalava no país.
Naquele tempo, o jornal tinha uns 150 mil assinantes, era troço pra burro. [...] Com a mudança na
opinião, a cólera dos leitores foi tal e tamanha que a tiragem chegou à metade. Dois meses depois,
o estoque de papel, que deveria durar um ano, foi consumido pelas rotativas, as vendas triplicaram.
O jornal era vendido até no câmbio paralelo.
Não mudara a linha editorial, que era liberal e continuou liberal, defendendo a democracia
e o respeito aos direitos humanos violentados pela nova classe que chegara ao poder.
Não tinha nenhum compromisso partidário. Alguns leitores custaram a perceber isso.
CONY, C. H. Folha de S. Paulo, 15 mar. 2011.
Nas crônicas, de um modo geral, a linguagem caracteriza-se pela alternância dos registros formal e
informal. O emprego do pronome de tratamento, em “S. Exa., o leitor”, justifica-se pela intenção de