Enunciado

Passado muito tempo, resolvi tentar falar, porque estava sozinha me
embrenhando na mesma vereda que Donana costumava entrar. Ainda recordo
da palavra que escolhi: arado. Me deleitava vendo meu pai conduzindo o arado
velho da fazenda carregado pelo boi, rasgando a terra para depois lançar grãos
de arroz em torrões marrons e vermelhos revolvidos. Gostava do som
redondo, fácil e ruidoso que tinha ao ser enunciado. “Vou trabalhar no arado.”
“Vou arar a terra.” “Seria bom ter um arado novo, esse arado tá troncho e
velho.” O som que deixou minha boca era uma aberração, uma desordem,
como se no lugar do pedaço perdido da língua tivesse um ovo quente. Era um
arado torto, deformado, que penetrava a terra de tal forma a deixá-la infértil,
destruída, dilacerada.
Com a perda de parte da língua na infância, a narradora tenta voltar a falar.
Essa tentativa revela uma experiência que