Enunciado

Enquanto estivemos entretidos com os urubus outras coisas andaram
acontecendo na cidade. A Companhia baixou novas proibições, umas
inteiramente bobocas, só pelo prazer de proibir (ninguém podia cuspir pra
cima, nem carregar água em jacá, nem tapar o sol com peneira, como se todo
mundo estivesse abusando dessas esquisitices); mas outras bem irritantes,
como a de pular muro pra cortar caminho, tática que quase todo mundo que
não sofria de reumatismo vinha adotando ultimamente, principalmente os
meninos. E não confiando na proibição só, nem na força dos castigos, que
eram rigorosos, a Companhia ainda mandou fincar cacos de garrafa nos
muros. Achei isso um exagero, e comentei o assunto com mamãe. Meu pai
ouviu lá do quarto e veio explicar. Disse que em épocas normais bastava uma
coisa ou outra; mas agora a Companhia não podia admitir nenhuma brecha em
suas ordens; se alguém desobedecesse à proibição podia se cortar nos cacos;
se alguém conseguisse pular um muro quebrando o corte de alguns cacos, ou
jogando um couro por cima, era apanhado pela proibição, nhoc – e fez o gesto
de quem torce o pescoço de um frango.
Sob a perspectiva do menino que narra, os fatos ficcionais oferecem um
esboço do momento político vigente na década de 1970, aqui representado
pelo