Enunciado
Longamente lhe expus a minha fraqueza mental, a impossibilidade de compreender as palavras
difíceis, sobretudo na ordem terrível em que se juntavam. Se eu fosse como os outros, bem; mas era
bruto em demasia, todos me achavam bruto em demasia.
Emília combateu a minha convicção, falou-me dos astrônomos, indivíduos que liam no céu,
percebiam tudo quanto há no céu. […] Ora, se eles enxergavam coisas tão distantes, por que não
conseguiria eu adivinhar a página aberta diante dos meus olhos? Não distinguia as letras? Não sabia
reuni-las e formar palavras?
Matutei na lembrança de Emília. Eu, os astrônomos, que doidice! Ler as coisas do céu, quem havia
de supor?
E tomei coragem, fui esconder-me no quintal, com os lobos, o homem, a mulher, os pequenos,
a tempestade na floresta, a cabana do lenhador. Reli as folhas já percorridas. E as partes que se
esclareciam derramavam escassa luz sobre os pontos obscuros. Personagens diminutas cresciam,
vagarosamente me penetravam a inteligência espessa. Vagarosamente.
Os astrônomos eram formidáveis. Eu, pobre de mim, não desvendaria os segredos do céu. Preso à
terra, sensibilizar-me-ia com histórias tristes, em que há homens perseguidos, mulheres e crianças
abandonadas, escuridão e animais ferozes.
