Enunciado


Falavam-me sempre no perigo de subir à Favela. Nos seus terríveis valentes. Nos seus
malandros que assaltam com a mesma facilidade com que se dá bom-dia.
O maior perigo que eu encontrei na Favela foi o risco, a cada passo, de despencar-me de lá de
cima pela pedreira ou pelo morro abaixo.
Aquela gente, que não tem nada, dá uma profunda lição de alegria àqueles que têm tudo.
Sem higiene, sem conforto, naqueles pequeninos casebres [...], que se arriscam, a cada instante,
a voar com o vento ou despencar-se lá de cima; aquela população de homens valentes –
estivadores, carvoeiros, embarcadiços – e de mulheres anemiadas e fracas, e de crianças mal
alimentadas e em trapos, cria porcos, bebe cachaça, toca cavaquinho e canta!...
Em 1924, quando foi publicada essa crônica, predominava uma visão estigmatizada e
preconceituosa sobre as comunidades no Rio de Janeiro da Primeira República. Nesse trecho,
essa percepção é