Enunciado

Meu irmão é filho adotivo. Há uma tecnicidade no termo, filho adotivo, que contribui para sua
aceitação social. Há uma novidade que por um átimo o absolve das mazelas do passado,
que parece limpá-lo de seus sentidos indesejáveis. Digo que meu irmão é filho adotivo e as
pessoas tendem a assentir com solenidade, disfarçando qualquer pesar, baixando os olhos
como se não sentissem nenhuma ânsia de perguntar mais nada. Talvez compartilhem da
minha inquietude, talvez de fato se esqueçam do assunto no próximo gole ou na próxima
garfada. Se a inquietude continua a reverberar em mim, é porque ouço a frase também de
maneira parcial — meu irmão é filho — e é difícil aceitar que ela não termine com a verdade
tautológica habitual: meu irmão é filho dos meus pais. Estou entoando que meu irmão é filho
e uma interrogação sempre me salta aos lábios: filho de quem?
Das reflexões do narrador, apreende-se uma perspectiva que associa a adoção