Enunciado

Ao contrário do que ficou dito atrás, Flora não se aborreceu na ilha. Conjeturei mal,
emendo-me a tempo. Podia aborrecer-se pelas razões que lá ficam, e ainda outras que
poupei ao leitor apressado; mas, em verdade, passou bem a noite. A novidade da festa, a
vizinhança do mar, os navios perdidos na sombra, a cidade defronte com os seus lampiões
de gás, embaixo e em cima, na praia e nos outeiros, eis aí aspectos novos que a
encantaram durante aquelas horas rápidas.
Não lhe faltavam pares, nem conversação, nem alegria alheia e própria. Toda ela compartia
da felicidade dos outros. Via, ouvia, sorria, esquecia-se do resto para se meter consigo.
Também invejava a princesa imperial, que viria a ser imperatriz um dia, com o absoluto
poder de despedir ministros e damas, visitas e requerentes, e ficar só, no mais recôndito do
paço, fartando-se de contemplação ou de música. Era assim que Flora definia o ofício de
governar. Tais ideias passavam e tornavam. De uma vez alguém lhe disse, como para lhe
dar força: "Toda alma livre é imperatriz! ".
Convidada para o último baile do Império, na Ilha Fiscal, localizada no Rio de Janeiro, Flora
devaneia sobre aspectos daquele contexto, no qual o narrador ironiza a