Enunciado

Até ali que sabia das misérias do mundo? Nada. Aquela noite do Castelo, tão simples, tão
monótona, fora uma revelação! Era bem certo que a lágrima existia, que irrompiam soluços
de peitos oprimidos, que para alguém os dias não tinham cor nem a noite tinha estrelas! Ela,
criada entre beijos, no aroma dos seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a
mesa delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou uma
saudade absurda, a saudade do céu, como dizia o dr. Gervásio, e que não era mais que a
doida aspiração da artista incipiente, que germinava no seu peito fraco.
E aquela mesma mágoa parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se à outra, a
Sancha, da sua idade, negra, feia, suja, levada a pontapés, dormindo sem lençóis em uma
esteira, comendo em pé, apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de
algodões rotos, curvada para um trabalho sem descanso nem paga!
Por quê? Que direito teriam uns a todas as primícias e regalos da vida, se havia outros que
nem por uma nesga viam a felicidade?
Nesse fragmento do romance de Júlia Lopes de Almeida, escrito no cenário brasileiro
pós-abolição, a narradora exprime um olhar crítico sobre a