Enunciado
O mato do Mutúm é um enorme mundo preto, que nasce dos
buracões e sobe a serra. O guará-lobo trota a vago no campo. As
pessôas mais velhas são inimigas dos meninos. Soltam e estumam
cachorros, para ir matar os bichinhos assustados — o tatú que se
agarra no chão dando guinchos suplicantes, os macacos que fazem
artes, o coelho que mesmo até quando dorme todo-tempo sonha
que está sendo perseguido. O tatú levanta as mãozinhas cruzadas,
ele não sabe — e os cachorros estão rasgando o sangue dele, e
ele pega a sororocar. O tamanduá. Tamanduá passeia no cerrado,
na beira do capoeirão. Ele conhece as árvores, abraça as árvores.
Nenhum nem pode rezar, triste é o gemido deles campeando
socôrro. Todo choro suplicando por socôrro é feito para Nossa
Senhora, como quem diz a salve-rainha. Tem uma Nossa Senhora
velhinha. Os homens, pé-ante-pé, indo a peitavento, cercaram o
casal de tamanduás, encantoados contra o barranco, o casal de
tamanduás estavam dormindo. Os homens empurraram com a vara
de ferrão, com pancada bruta, o tamanduá que se acordava. Deu
som surdo, no corpo do bicho, quando bateram, o tamanduá caiu
pra lá, como um colchão velho.
