Enunciado

Gerineldo dorme porque já está conformado com o seu mundo. Porque já sabe
tudo o que lhe pode acontecer após haver submetido todos os objetos que o
rodeiam a um minucioso inventário de possibilidades. Seu apartamento, mais
que um apartamento, é uma teoria de sorte e de azar. Melhor que ninguém,
Gerineldo conhece o coeficiente da dilatação de suas janelas e mantém
marcado no termômetro, com uma linha vermelha, o ponto em que se
quebrarão os vidros, despedaçados em estilhaços de morte. Sabe que os
arquitetos e os engenheiros já previram tudo, menos o que nunca já
aconteceu.

A situação é o sujeito inteiro (ele não é nada a não ser a sua situação) e é
também a coisa inteira (nunca há mais nada senão as coisas). É o sujeito a
elucidar as coisas pela sua própria superação, se assim quisermos; ou são as
coisas a reenviar ao sujeito a imagem dele. É a total facticidade, a
contingência absoluta do mundo, do meu nascimento, do meu lugar, do meu
passado, dos meus redores – e é a minha liberdade sem limites que faz com
que haja para mim uma facticidade.
A postura determinista adotada pelo personagem Gerineldo contrasta com a
ideia existencialista contida no pensamento filosófico de Sartre porque