Enunciado

Eu a conheci da primeira vez em que estive aqui. Parece-me que é esquizofrênica,
caso crônico, doente há mais de vinte anos — não estou bem certa. Foi transferida para
a Colônia Juliano Moreira e nunca mais a vi. [...] À tarde, quando ia lá, pedia-lhe para
cantar a ária da Bohème, “Valsa da Musetta”. Dona Georgiana, recortada no meio do pátio,
cantava — e era de doer o coração. As dementes, descalças e rasgadas, paravam em
surpresa, rindo bonito em silêncio, os rostos transformados. Outras, sentadas no chão
úmido, avançavam as faces inundadas de presença — elas que eram tão distantes. Os
rostos fulgiam por instantes, irisados e indestrutíveis. Me deixava imóvel, as lágrimas
cegando-me. Dona Georgiana cantava: cheia de graça, os olhos azuis sorrindo, aquele
passado tão presente, ela que fora, ela que era, se elevando na limpidez das notas,
minhas lágrimas descendo caladas, o pátio de mulheres existindo em dor e beleza. A
beleza terrífica que Puccini não alcançou: uma mulher descalça, suja, gasta, louca, e as
notas saindo-lhe em tragicidade difícil e bela demais — para existir fora de um hospício.
CANÇADO, M. L. Hospício é Deus. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
O diário da autora, como interna de hospital psiquiátrico, configura um registro singular,
fundamentado por uma percepção que