Enunciado

Mestre e companheiro, disse eu que nos íamos despedir. Mas disse mal. A morte
não extingue: transforma; não aniquila: renova; não divorcia: aproxima. Um dia
supuseste “morta e separada” a consorte dos teus sonhos e das tuas agonias, que
te soubera “pôr um mundo inteiro no recanto” do teu ninho; e, todavia, nunca ela
te esteve mais presente, no íntimo de ti mesmo e na expressão do teu canto, no
fundo do teu ser e na face de tuas ações. Esses catorze versos inimitáveis, em que
o enlevo dos teus discípulos resume o valor de toda uma literatura, eram a aliança
de ouro do teu segundo noivado, um anel de outras núpcias, para a vida nova do
teu renascimento e da tua glorificação, com a sócia sem nódoa dos teus anos de
mocidade e madureza, da florescência e frutificação de tua alma. Para os eleitos do
mundo das ideias a miséria está na decadência, e não na morte. A nobreza de uma
nos preserva das ruínas da outra. Quando eles atravessavam essa passagem do
invisível, que os conduz à região da verdade sem mescla, então é que entramos a
sentir o começo do seu reino, o reino dos mortos sobre os vivos.
Esse é um trecho do discurso de Rui Barbosa na Academia Brasileira de Letras
em homenagem a Machado de Assis por ocasião de sua morte. Uma das
características desse discurso de homenagem é a presença de