Enunciado
Para começar, ele nos olha na cara. Não é como a máquina de
escrever, que a gente olha de cima, com superioridade. Com ele é
olho no olho ou tela no olho. Ele nos desafia. Parece estar dizendo:
vamos lá, seu desprezível pré-eletrônico, mostre o que você sabe fazer.
A máquina de escrever faz tudo que você manda, mesmo que seja a
tapa. Com o computador é diferente. Você faz tudo que ele manda.
Ou precisa fazer tudo ao modo dele, senão ele não aceita. Às vezes,
quando a gente erra, ele faz “bip”. Assim, para todo mundo ouvir. Comecei
a usar o computador na redação do jornal e volta e meia errava. E lá
vinha ele: “Bip!” “Olha aqui, pessoal: ele errou.” “O burro errou!”.
Outra coisa: ele é mais inteligente que você. Esse negócio de que
qualquer máquina só é tão inteligente quanto quem a usa não vale
com ele. Está subentendido, nas suas relações com o computador, que
você jamais aproveitará metade das coisas que ele tem para oferecer.
A máquina de escrever podia ter recursos que você nunca usaria, mas
não tinha o mesmo ar de quem só aguentava os humanos por falta de
coisa melhor, no momento. E a máquina, mesmo nos seus instantes
de maior impaciência conosco, jamais faria “bip” em público.
