Enunciado
Bondade fazia jus ao apelido. Não tinha pouso certo. Morava em lugar algum, a não ser
no coração de todos.
— Para que ter pouso certo? — dizia ele. — Homem devia ser que nem passarinho, ter
asas para voar. Já rodei. Já vivi favela e mais favela, já vivi debaixo de pontes, viadutos...
Já vivi matos e cidades. Já vaguei, vaguei... Muito tempo estou por aqui nesta favela. Aqui
é grande como uma cidade. Há tanto barraco para entrar, tanta gente para se gostar!
O tempo ia passando, Bondade ficando ali. Comia em casa de um, bebia em casa de outro.
Era amigo comum de dois ou mais inimigos. Não era traidor nem mediador também. Quando
chegava à casa de um, por mais que indagassem, por mais que futricassem, Bondade não
abria a boca. Desconversava, conversava, e a intriga morria logo. Vivia intensamente cada
lugar em que chegava. Cada casa, cada pessoa, cada miséria e grandeza a seu tempo
certo, no seu exato momento. EVARISTO, C. Becos da memória. Rio de Janeiro: Pallas, 2018.
No texto, o apelido dado ao personagem incorpora valores humanos relativos à sua