Enunciado
Duas castas de considerações fez de si para consigo o cauto Conselheiro. Primeiramente
foi saltar-lhe ao nariz a evidência de que ministro não visita empregado público, ainda que
in extremis, mesmo a uma braça, ou duas, acima do chapéu do amanuense mais bisonho.
Também não visita escritor enfermo por ser escritor, e por estar enfermo. Seriam trabalhos,
ambos, a que não se daria um ministro, nem sempre ocupado das cousas, altas ou baixas,
do Estado.
O tempo ministerial não se vai perdulariamente, não se faz em farinhas. Os titulares
esquivam-se até a suspirar, que os suspiros implicam o desperdício de minutos se o suspiro
é de minutos, além de permitirem ilações perigosas sobre a estabilidade do ministro, quando
não do próprio gabinete.
A segunda ponderação remeteu-o à certeza de que terminantemente chegavam ao cabo
seus dias; e de que as esperanças eram aéreas, atado agora à cama até que o encerrassem
na urna, como um voto eleitoral frio.
MARANHÃO, H. Memorial do fim: a morte de Machado de Assis. São Paulo: Marco Zero, 1991.
O texto relata o momento em que, no leito de morte, Machado de Assis recebe a
visita do Barão do Rio Branco, ministro de Estado. Criando a cena, o narrador obtém
expressividade ao