Enunciado
Os homens estavam tratando de negócios e eu fiquei longe pra
não atrapalhar. Já tinha ido com meu pai a muitos lugares e sabia
que, quando ele queria falar de negócio, não gostava que eu ficasse
por perto pedindo isso e aquilo. O secos e molhados era um mundo,
enorme, eu me perdi lá dentro. Gostei de circular de um canto a
outro [...]. Percebi que as vozes se alteravam e escutei a do meu pai
apertada, mais baixa que as outras. Não sei por que, em vez de ver
o que estava acontecendo, me escondi atrás das prateleiras e tentei
ouvir o que eles diziam. Não entendi nada, mas pelo tom da conversa,
percebi que meu pai estava triste. [...] O dono do armazém, cigarro
pendurado na boca, sorriu, anotou qualquer coisa num saco de papel
e enfiou a caneta sobre a orelha. Tinha uma cara feia e, ao mesmo
tempo, me deu raiva e dó dele. [...] Meu pai disse, “Vamos, tá na hora”,
e pagou a conta, a mercadoria não era boa, que ele compreendesse.
Saímos. Antes de chegar na Kombi, olhei de rabo de olho e vi,
surpreso, que meu pai estava chorando. Na hora eu achei que seria
melhor não olhar, até procurei fingir, pra ele se controlar. Eu senti
que ele se envergonharia se eu percebesse. Andamos depressa,
a grande mão dele no meu ombro, num toque leve, um carinho
resignado. Como quem não quer nada, fiz que estava atento ao
movimento das ruas, mas via a dor cobrindo o rosto dele quando o
sol cintilou seus olhos.
CARRASCOZA, J. A. Aos 7 e aos 40. São Paulo: Cosac Naify, 2013.
No texto, a relação entre os personagens adquire uma
representação tensa, na perspectiva do narrador-personagem,
que reconhece a