Enunciado
Certo sábado, o sinhô José Carlos recebeu visitas, sete ou oito homens da capital. Eram pessoas
importantes, pois nós, da cozinha, trabalhamos muito preparando quitutes sob a supervisão da sinhá
Ana Felipa, que acompanhava tudo de caderno em punho e língua afiada. Depois de cada prato
pronto, ela experimentava e jogava fora o que não ficava bom, no lixo mesmo, não sem antes jogar
água ou fazer qualquer outra coisa para que nós não pudéssemos aproveitar.
Fazia isso dizendo que preto não tinha paladar para apreciar aquele tipo de comida e nem ela
queria ser acusada de ter alimentado escravos com comida digna de reis, mesmo que estragada pela
nossa incompetência, pelo nosso dom de fazer somente a ração a que estávamos acostumados todos
os dias. O Sebastião e a Antônia, que serviriam os pratos, ganharam fardas novas. Ficaram horas com
a sinhá Ana Felipa, que mostrou de que lado de cada pessoa deveriam servir à mesa, a ordem em
que os pratos sairiam da cozinha e depois seriam retirados, como encher os copos, e outras coisas.
