Enunciado
No tempo em que assistíamos televisão no meio da praça
O que eu vou contar nestas próximas linhas não fará sentido para
os leitores mais jovens, mas houve um tempo em que assistíamos
televisão no meio da praça. Nessa fase, a propriedade de aparelhos
ainda era restrita às camadas mais abastadas.
Seja no meio de uma praça pública, seja na sala de casa, a
televisão cumpriu um importante papel de sociabilização, mesmo
que de forma mitigada. Isso porque, ao contrário do que acontecia na
antiguidade, as praças não eram (como ainda não são) espaços de
convivência pública ativa, no máximo um lugar para gastar o tempo,
bater um papo. Naqueles tempos, os aparelhos de TV nas praças
reverteram um pouco dessa lógica.
Ao que parece, está se inaugurando no Brasil um novo tempo no
campo da pesquisa sobre a televisão e sua inserção sociocultural
nas camadas populares.
Essas pesquisas não podem e não devem ignorar, especialmente,
a intensa concentração desses veículos nas mãos de poucas famílias
e grupos econômicos, sob o risco de a televisão no Brasil continuar centrada
num modelo antidemocrático, antimediador, intransitivo, tendo como
consequência direta a limitação crescente da participação da população
nas instâncias públicas de decisão (a televisão é uma concessionária de
serviço público), só que agora com o agravante da falsa sensação de que
a comunicação se tornou mais democrática com a internet.
Que a televisão permaneça por muitos e muitos anos, mas que o seu
atual modelo tenha seus dias contados! Quem sabe com isso um dia
voltemos para o meio da praça, não mais para assistir TV, mas para
fazermos valer uma cultura de participação política realmente ativa
e instruída, como uma democracia de fato merece.
