Enunciado

Tomo café em golinhos para não queimar meus lábios ressequidos. Como pão em
pedacinhos para não engasgar com um farelo mais duro. Marília come também, mas olha o
tempo todo para baixo. Parece que tem um acanhamento novo entre a gente. Termino. Olho
mais uma vez pela janela. O dia está bom. Quero caminhar pelo pátio. Marília levanta, pega
o andador e põe ao lado da cama. Ela sabe que eu quero levantar sozinha, e levanto. O
lance de escadas, apesar de pequeno, ainda me causa problemas, mas não quero um
elevador na casa e não vou tolerar descer uma rampa de cadeira de rodas. Marília abre a
porta e saímos para a manhã. O dia está mais fresco do que eu imaginava. Ela pega uma
manta de tricô que temos desde não sei quando e põe sobre as minhas costas. Ela aperta
meus ombros com muita força, porque mesmo depois de todos esses anos, não descobriu a
medida certa do carinho. Eu gosto. Porque entendo que naquele ato, naquela força está o
nosso carinho.
Nesse trecho, o drama do declínio físico da narradora transmite uma sensibilidade lírica
centrada na