Prova do ENEM 2022 — 1º dia — Espanhol aplicação — Caderno 1 Azul — Digital: questões
Instituição:
ENEM
Ano:
2022
Etapa:
1 dia
Páginas no PDF:
105
Questões:
90
Consulte o caderno de questões do ENEM 2022, 1º dia, aplicação regular. O PDF foi obtido na página oficial de provas e gabaritos do Inep. O gabarito oficial está disponível para download.
Visualizar PDF original da prova
Leia o documento abaixo ou abra o arquivo diretamente em outra aba.
resgatar a literatura popular produzida em língua zapoteca.
C)
questionar o conhecimento do povo mexicano sobre as línguas ameríndias.
D)
destacar o papel dos órgãos governamentais na conservação das línguas no
México.
E)
defender a preservação das línguas originárias garantindo a diversidade
linguística mexicana.
Questão 2
Pequeño hermano
Es, no cabe duda, el instrumento más presente y más poderoso de todos los que
entraron en nuestras vidas. Ni la televisión ni el ordenador, no hablemos ya del obsoleto
fax o de las agendas o los libros electrónicos, ha tenido tal influencia, tal predicamento
sobre nosotros. El móvil somos nosotros mismos. Todo desactivado e inerte, inocuo, ya
les digo. Y de repente, tras un viaje y tres o cuatro imprudentes fotos, salta un aviso en la
pantalla. Con sonido, además, pese a que tengo también todas las alertas desactivadas.
Y mi monstruo doméstico me dice: Tienes un recuerdo nuevo. Lo repetiré: tienes un
recuerdo nuevo. ¿Y tú qué sabes? ¿Y a ti, máquina demoníaca, qué te importa? ¿Cómo
te atreves a decirme qué son o no son mis recuerdos? ¿Qué es esta intromisión, este
descaro? El pequeño hermano lo sabe casi todo. Sólo hay una esperanza: que la
obsolescencia programada mate antes al pequeño hermano y que nosotros sigamos
vivos, con los recuerdos que nos dé la gana.
FERNÁNDEZ, D. Disponível em: www.lavanguardia.com. Acesso em: 5 dez. 2018 (adaptado).
No texto, o autor faz uma crítica ao(à)
A)
conhecimento das pessoas sobre as tecnologias.
B)
uso do celular alheio por pessoas desautorizadas.
C)
funcionamento de recursos tecnológicos obsoletos.
D)
ingerência do celular sobre as escolhas dos usuários.
E)
falta de informação sobre a configuração de alertas no celular.
Questão 3
En los suburbios de La Habana, llaman al amigo mi tierra o mi sangre. En Caracas, el
amigo es mi pana o mi llave: pana, por panadería, la fuente del buen pan para las
hambres del alma; y llave por... — Llave, por llave — me dice Mario Benedetti. Y me
cuenta que cuando vivía en Buenos Aires, en los tiempos del terror, él llevaba cinco llaves
ajenas en su llavero: cinco llaves, de cinco casas, de cinco amigos: las llaves que lo
salvaron.
GALEANO, E. El libro de los abrazos. Madri: Siglo Veintiuno, 2015.
Nesse texto, o autor demonstra como as diferentes expressões existentes em espanhol
para se referir a “amigo” variam em função
A)
das peculiaridades dos subúrbios hispano-americanos.
B)
da força da conexão espiritual entre os amigos.
C)
do papel da amizade em diferentes contextos.
D)
do hábito de reunir amigos em torno da mesa.
E)
dos graus de intimidade entre os amigos.
Questão 4
Los niños de nuestro olvido
Escribo sobre un destino
que apenas puedo tocar
en tanto un niño se inventa
con pegamento un hogar
Mientras busco las palabras
para hacer esta canción
un niño esquiva las balas
que buscan su corazón
Acurrucado en mi calle
duerme un niño y la piedad
arma lejos un pesebre
y juega a la navidad
Arma lejos un pesebre
y juega a la navidad
y juega a la navidad
y juega, y juega, y juega...
La niñez de nuestro olvido
pide limosna en un bar
y lava tu parabrisas
por un peso, por un pan
Si las flores del futuro
crecen con tanto dolor
seguramente mañana
será un mañana sin sol
SOSA, M. In:
Corazón libre. Argentina: E.D.G.E., 2004 (fragmento).
No texto, a expressão “un mañana sin sol ” é usada para concluir uma crítica ao(à)
A)
descaso diante da problemática de crianças em situação de rua.
B)
violência característica do cotidiano das grandes metrópoles.
C)
estímulo à mendicância nos centros urbanos.
D)
tendência de informalização do trabalho.
E)
falta de serviços de saúde adequados.
Questão 5
MATERNIDADES EN TIEMPOS DE PANDEMIA
MURIG. Disponível em:https://murigcolectivafeminista.wordpress.com. Acesso em: 26 out. 2021 (adaptado).
No texto, as palavras “crianza” e “tribu” são usadas para
A)
evidenciar a importância de uma rede de apoio para as mães na criação de seus
filhos.
B)
denunciar a disparidade entre o trabalho das mães de diferentes classes sociais.
C)
ressaltar o fechamento de escolas e creches durante o período pandêmico.
D)
ratificar a romantização da dedicação das mães na educação das crianças.
E)
enfatizar a proteção aos filhos em razão do isolamento social das famílias.
Questão 6
Urgência emocional
Se tudo é para ontem, se a vida engata uma primeira e sai em disparada, se não há
mais tempo para paradas estratégicas, caímos fatalmente no vício de querer que os
amores sejam igualmente resolvidos num átimo de segundo. Temos pressa para ouvir “eu
te amo”. Não vemos a hora de que fiquem estabelecidas as regras de convívio: somos
namorados, ficantes, casados, amantes? Urgência emocional. Uma cilada. Associamos
diversas palavras ao AMOR: paixão, romance, sexo, adrenalina, palpitação. Esquecemos,
no entanto, da palavra que viabiliza esse sentimento: “paciência”. Amor sem paciência
não vinga. Amor não pode ser mastigado e engolido com emergência, com fome
desesperada. É uma refeição que pode durar uma vida.
MEDEIROS, M. Disponível em: http://porumavidasimples.blogspot.com.br. Acesso em: 20 ago. 2017 (adaptado).
Nesse texto de opinião, as marcas linguísticas revelam uma situação distensa e de pouca
formalidade, o que se evidencia pelo(a)
A)
impessoalização ao longo do texto, como em: “se não há mais tempo”.
B)
construção de uma atmosfera de urgência, em palavras como: “pressa”.
C)
repetição de uma determinada estrutura sintática, como em: “Se tudo é para
ontem”.
D)
ênfase no emprego da hipérbole, como em: “uma refeição que pode durar uma
vida”.
E)
emprego de metáforas, como em: “a vida engata uma primeira e sai em
disparada”.
Questão 7
TEXTO I
Disponível em: https://amigodobicho.wordpress.com. Acesso em: 10 dez. 2017.
TEXTO II
Nas ruas, na cidade e no parque
Ninguém nunca prendeu o Delegado. O vaivém de rua em rua e sua longa vida são
relembrados e recontados. Exemplo de sobrevivência, liderança, inteligência canina,
desde pequenininho seu focinho negro e seus olhos delineados desenharam um mapa
mental olfativo-visual de Lavras. Corria de quem precisava correr e se aproximava de
quem não lhe faria mal, distinguia este daquele. Assim, tornou-se um cão comunitário.
Nunca se soube por que escolheu a rua, talvez lhe tenham feito mal dentro de quatro
paredes. Idoso, teve câncer e desapareceu. O querido foi procurado pela cidade inteira
por duas protetoras, mas nunca encontrado.
COSTA, A. R. N. Viver o amor aos cães: Parque Francisco de Assis. Carmo do Cachoeira: Irdin, 2014 (adaptado).
Os dois textos abordam a temática de animais de rua, porém, em relação ao Texto I, o
Texto II
A)
problematiza a necessidade de adoção de animais sem lar.
B)
valida a troca afetiva entre os pets adotados e seus donos.
C)
reforça a importância da campanha de adoção de animais.
D)
exalta a natureza amigável de cães e de gatos.
E)
promove a campanha de adoção de animais.
Questão 8
É ruivo? Tem olhos azuis? É homem ou mulher? Usa chapéu? Quem jogou Cara a
Cara na infância sabe de cor o roteiro de perguntas para adivinhar quem é o personagem
misterioso do seu oponente.
Agora, o jogo está prestes a ganhar uma nova versão. A designer polonesa Zuzia
Kozerska-Girard está desenvolvendo uma variação do Guess Who? (nome do Cara a
Cara em inglês), em que as personalidades do tabuleiro são, na verdade, mulheres
notáveis da história e da atualidade, como a artista Frida Kahlo, a ativista Malala
Yousafzai, a astronauta Valentina Tereshkova e a aviadora Amelia Earhart. O Who’s She?
(“Quem é ela?”, em português) traz, no total, 28 mulheres que representam diversas
profissões, nacionalidades e idades.
A ideia é que, em vez de perguntar sobre a aparência das personagens, as questões
sejam direcionadas aos feitos delas: ganhou algum Nobel, fez alguma descoberta? Para
cada personagem há um cartão com fatos divertidos e interessantes sobre sua vida. Uma
campanha entrou no ar com o objetivo de arrecadar dinheiro para desenvolver o Who’s
She?. A meta inicial era reunir 17 mil dólares. Oito dias antes de a campanha acabar, o
projeto já angariou quase 350 mil dólares.
A chegada do jogo à casa do comprador varia de acordo com a quantia doada —
quanto mais você doou, mais rápido vai poder jogar.
Disponível em: www.super.abril.com.br. Acesso em: 4 dez. 2018 (adaptado).
Ao divulgar a adaptação do jogo para questões relativas a ações e habilidades de
mulheres notáveis, o texto busca
A)
contribuir para a formação cidadã dos jogadores.
B)
refutar modelos estereotipados de beleza e elegância.
C)
estimular a competitividade entre potenciais compradores.
D)
exemplificar estratégias de arrecadação financeira pela internet.
E)
desenvolver conhecimentos lúdicos específicos dos tempos atuais.
Questão 9
Disponível em: www.portaldapropaganda.com.br. Acesso em: 29 out. 2013 (adaptado).
Para convencer o público-alvo sobre a necessidade de um trânsito mais seguro, essa
peça publicitária apela para o(a)
A)
sentimento de culpa provocado no condutor causador de acidentes.
B)
dano psicológico causado nas vítimas da violência nas estradas.
C)
importância do monitoramento do trânsito pelas autoridades competentes.
D)
necessidade de punição a motoristas alcoolizados envolvidos em acidentes.
E)
sofrimento decorrente da perda de entes queridos em acidentes automobilísticos.
Questão 10
Ciente de que, no campo da criação, as inovações tecnológicas abrem amplo leque
de possibilidades — ao permitir, e mesmo estimular, que o artista explore a fundo, em seu
processo criativo, questões como a aleatoriedade, o acaso, a não linearidade e a
hipermídia —, Leo Cunha comenta que, no que tange ao campo da divulgação, as
alternativas são ainda mais evidentes: “Afinal, é imensa a capacidade de reprodução,
multiplicação e compartilhamento das obras artísticas/culturais. Ao mesmo tempo,
ganham dimensão os dilemas envolvidos com a questão da autoria, dos direitos autorais,
da reprodução e intervenção não autorizadas, entre outras questões”. Já segundo a
professora Yacy-Ara Froner, o uso de ferramentas tecnológicas não pode ser visto como
um fim em si mesmo. Isso porque computadores, samplers, programas de imersão,
internet e intranet, vídeo, televisão, rádio, GPD etc. são apenas suportes com os quais os
artistas exercem sua imaginação.
SILVA JR., M. G. Movidas pela dúvida. Minas faz Ciências, n. 52, dez.-fev. 2013 (adaptado).
Segundo os autores citados no texto, a expansão de possibilidades no campo das
manifestações artísticas promovida pela internet pode pôr em risco o(a)
A)
sucesso dos artistas.
B)
valorização dos suportes.
C)
proteção da produção estética.
D)
modo de distribuição de obras.
E)
compartilhamento das obras artísticas.
Questão 11
Ora, sempre que surge uma nova técnica, ela quer demonstrar que revogará as
regras e coerções que presidiram o nascimento de todas as outras invenções do
passado. Ela se pretende orgulhosa e única. Como se a nova técnica carreasse com ela,
automaticamente, para seus novos usuários, uma propensão natural a fazer economia de
qualquer aprendizagem. Como se ela se preparasse para varrer tudo que a precedeu, ao
mesmo tempo transformando em analfabetos todos os que ousassem repeli-la.
Fui testemunha dessa mudança ao longo de toda a minha vida. Ao passo que, na
realidade, é o contrário que acontece. Cada nova técnica exige uma longa iniciação numa
nova linguagem, ainda mais longa na medida em que nosso espírito é formatado pela
utilização das linguagens que precederam o nascimento da recém-chegada.
ECO, U.; CARRIÈRE, J.-C. Não contem com o fim do livro. Rio de Janeiro: Record, 2010 (adaptado).
O texto revela que, quando a sociedade promove o desenvolvimento de uma nova
técnica, o que mais impacta seus usuários é a
A)
dificuldade na apropriação da nova linguagem.
B)
valorização da utilização da nova tecnologia.
C)
recorrência das mudanças tecnológicas.
D)
suplantação imediata dos conhecimentos prévios.
E)
rapidez no aprendizado do manuseio das novas invenções.
Questão 12
Papos
— Me disseram...
— Disseram-me.
— Hein?
— O correto é “disseram-me”. Não “me disseram”.
— Eu falo como quero. E te digo mais... Ou é “digo-te”?
— O quê?
— Digo-te que você...
— O “te” e o “você” não combinam.
— Lhe digo?
— Também não. O que você ia me dizer?
— Que você está sendo grosseiro, pedante e chato. [...]
— Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem entender. Mais
uma correção e eu...
— O quê?
— O mato.
— Que mato?
— Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem? Pois esqueça-o e
para-te. Pronome no lugar certo é elitismo!
— Se você prefere falar errado...
— Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou entenderem-me?
VERISSIMO, L. F. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001 (adaptado).
Nesse texto, o uso da norma-padrão defendido por um dos personagens torna-se
inadequado em razão do(a)
A)
falta de compreensão causada pelo choque entre gerações.
B)
contexto de comunicação em que a conversa se dá.
C)
grau de polidez distinto entre os interlocutores.
D)
diferença de escolaridade entre os falantes.
E)
nível social dos participantes da situação.
Questão 13
São vários os fatores, internos e externos, que influenciam os hábitos das pessoas
no acesso à internet, assim como nas práticas culturais realizadas na rede. A utilização
das tecnologias de informação e comunicação está diretamente relacionada aos aspectos
como: conhecimento de seu uso, acesso à linguagem letrada, nível de instrução,
escolaridade, letramento digital etc. Os que detêm tais recursos (os mais escolarizados)
são os que mais acessam a rede e também os que possuem maior índice de
acumulatividade das práticas. A análise dos dados nos possibilita dizer que a falta de
acesso à rede repete as mesmas adversidades e exclusões já verificadas na sociedade
brasileira no que se refere a analfabetos, menos escolarizados, negros, população
indígena e desempregados. Isso significa dizer que a internet, se não produz diretamente
a exclusão, certamente a reproduz, tendo em vista que os que mais a acessam são
justamente os mais jovens, escolarizados, remunerados, trabalhadores qualificados,
homens e brancos.
SILVA, F. A. B.; ZIVIANE, P.; GHEZZI, D. R. As tecnologias digitais e seus usos. Brasília; Rio de Janeiro: Ipea,
2019 (adaptado).
Ao analisarem a correlação entre os hábitos e o perfil socioeconômico dos usuários da
internet no Brasil, os pesquisadores
A)
apontam o desenvolvimento econômico como solução para ampliar o uso da rede.
B)
questionam a crença de que o acesso à informação é igualitário e democrático.
C)
afirmam que o uso comercial da rede é a causa da exclusão de minorias.
D)
refutam o vínculo entre níveis de escolaridade e dificuldade de acesso.
E)
condicionam a expansão da rede à elaboração de políticas inclusivas.
Questão 14
TEXTO I
A língua não é uma nomenclatura, que se apõe a uma realidade pré-categorizada,
ela é que classifica a realidade. No léxico, percebe-se, de maneira mais imediata, o fato
de que a língua condensa as experiências de um dado povo.
FIORIN, J. L. Língua, modernidade e tradição. Diversitas, n. 2, mar.-set. 2014.
TEXTO II
As expressões coloquiais ainda estão impregnadas de discriminação contra os
negros. Basta recordar algumas delas, como passar um “dia negro”, ter um “lado negro”,
ser a “ovelha negra” da família ou praticar “magia negra”.
Disponível em: https://brasil.elpais.com. Acesso em: 22 maio 2018.
O Texto II exemplifica o que se afirma no Texto I, na medida em que defende a ideia de
que as escolhas lexicais são resultantes de um
A)
expediente próprio do sistema linguístico que nos apresenta diferentes
possibilidades para traduzir estados de coisas.
B)
ato inventivo de nomear novas realidades que surgem diante de uma comunidade
de falantes de uma língua.
C)
mecanismo de apropriação de formas linguísticas que estão no acervo da
formação do idioma nacional.
D)
processo de incorporação de preconceitos que são recorrentes na história de uma
sociedade.
E)
recurso de expressão marcado pela objetividade que se requer na comunicação
diária.
Questão 15
Disponível em: www.facebook.com/senadofederal. Acesso em: 9 dez. 2017.
Considerando-se a função social dos posts, essa imagem evidencia a apropriação de
outro gênero com o objetivo de
A)
promover o uso adequado de campanhas publicitárias do governo.
B)
divulgar o projeto sobre transparência da administração pública.
C)
responsabilizar o cidadão pelo controle dos gastos públicos.
D)
delegar a gestão de projetos de lei ao contribuinte.
E)
assegurar a fiscalização dos gastos públicos.
Questão 16
Ela era linda. Gostava de dançar, fazia teatro em São Paulo e sonhava ser atriz em
Hollywood. Tinha 13 anos quando ganhou uma câmera de vídeo — e uma irmã. As duas
se tornaram suas companheiras de experimentações. Adolescente, Elena vivia a criar
filminhos e se empenhava em dirigir a pequena Petra nas cenas que inventava. Era
exigente com a irmã. E acreditava no potencial da menina para satisfazer seus arroubos
de diretora precoce. Por cinco anos, integrou algumas das melhores companhias
paulistanas de teatro e participou de preleções para filmes e trabalhos na TV. Nunca foi
chamada. No início de 1990, Elena tinha 20 anos quando se mudou para Nova York para
cursar artes cênicas e batalhar uma chance no mercado americano. Deslocada, ansiosa,
frustrada após alguns testes de elenco malsucedidos, decepcionada com a ausência de
reconhecimento e vitimada por uma depressão que se agravava com a falta de
perspectivas, Elena pôs fim à vida no segundo semestre. Petra tinha 7 anos. Vinte anos
depois, é ela, a irmã caçula, que volta a Nova York para percorrer os últimos passos da
irmã, vasculhar seus arquivos e transformar suas memórias em imagem e poesia.
Elena é um filme sobre a irmã que parte e sobre a irmã que fica. É um filme sobre a
busca, a perda, a saudade, mas também sobre o encontro, o legado, a memória. Um
filme sobre a Elena de Petra e sobre a Petra de Elena, sobre o que ficou de uma na outra
e, essencialmente, um filme sobre a delicadeza.
VANUCHI, C. Época, 19 out. 2012 (adaptado).
O texto é exemplar de um gênero discursivo que cumpre a função social de
A)
narrar, por meio de imagem e poesia, cenas da vida das irmãs Petra e Elena.
B)
descrever, por meio das memórias de Petra, a separação de duas irmãs.
C)
sintetizar, por meio das principais cenas do filme, a história de Elena.
D)
lançar, por meio da história de vida do autor, um filme autobiográfico.
E)
avaliar, por meio de análise crítica, o filme em referência.
Questão 17
PALAVRA – As gramáticas classificam as palavras em substantivo, adjetivo, verbo,
advérbio, conjunção, pronome, numeral, artigo e preposição. Os poetas classificam as
palavras pela alma porque gostam de brincar com elas, e para brincar com elas é preciso
ter intimidade primeiro. É a alma da palavra que define, explica, ofende ou elogia, se
coloca entre o significante e o significado para dizer o que quer, dar sentimento às coisas,
fazer sentido. A palavra nuvem chove. A palavra triste chora. A palavra sono dorme.
A palavra tempo passa. A palavra fogo queima. A palavra faca corta. A palavra carro
corre. A palavra “palavra” diz. O que quer. E nunca desdiz depois. As palavras têm corpo
e alma, mas são diferentes das pessoas em vários pontos. As palavras dizem o que
querem, está dito, e pronto.
FALCÃO, A. Pequeno dicionário de palavras ao vento. São Paulo: Salamandra, 2013 (adaptado).
Esse texto, que simula um verbete para a palavra “palavra’’, constitui-se como um poema
porque
A)
tematiza o fazer poético, como em “Os poetas classificam as palavras pela alma”.
B)
utiliza o recurso expressivo da metáfora, como em “As palavras têm corpo e alma”.
C)
valoriza a gramática da língua, como em “substantivo, adjetivo, verbo, advérbio,
conjunção”.
D)
estabelece comparações, como em “As palavras têm corpo e alma, mas são
diferentes das pessoas”.
E)
apresenta informações pertinentes acerca do conceito de “palavra”, como em “As
gramáticas classificam as palavras”.
Questão 18
Morte lenta ao luso infame que inventou a calçada portuguesa. Maldito D. Manuel I e
sua corja de tenentes Eusébios. Quadrados de pedregulho irregular socados à mão. À
mão! É claro que ia soltar, ninguém reparou que ia soltar? Branco, preto, branco, preto, as
ondas do mar de Copacabana. De que me servem as ondas do mar de Copacabana? Me
deem chão liso, sem protuberâncias calcárias. Mosaico estúpido. Mania de mosaico. Joga
concreto em cima e aplaina. Buraco, cratera, pedra solta, bueiro-bomba. Depois dos
setenta, a vida se transforma numa interminável corrida de obstáculos. A queda é a maior
ameaça para o idoso. “Idoso”, palavra odienta. Pior, só “terceira idade”. A queda separa a
velhice da senilidade extrema. O tombo destrói a cadeia que liga a cabeça aos pés.
Adeus, corpo. Em casa, vou de corrimão em corrimão, tateio móveis e paredes, e tomo
banho sentado. Da poltrona para a janela, da janela para a cama, da cama para a
poltrona, da poltrona para a janela. Olha aí, outra vez, a pedrinha traiçoeira atrás de me
pegar. Um dia eu caio, hoje não.
TORRES, F. Fim. São Paulo: Cia. das Letras, 2013.
O recurso que caracteriza a organização estrutural desse texto é o(a)
A)
justaposição de sequências verbais e nominais.
B)
mudança de eventos resultante do jogo temporal.
C)
uso de adjetivos qualificativos na descrição do cenário.
D)
encadeamento semântico pelo uso de substantivos sinônimos.
E)
inter-relação entre orações por elementos linguísticos lógicos.
Questão 19
Pisoteamento, arrastão, empurra-empurra, agressões, vandalismo e até furto a um
torcedor que estava caído no asfalto após ser atropelado nas imediações do estádio do
Maracanã. As cenas de selvageria tiveram como estopim a invasão de milhares de
torcedores sem ingresso, que furaram o bloqueio policial e transformaram o estádio em
terra de ninguém. Um reflexo não só do quadro de insegurança que assola o Rio de
Janeiro, mas também de como a violência social se embrenha pelo esporte mais popular
do país. Em 2017, foram registrados 104 episódios de violência no futebol brasileiro, que
resultaram em 11 mortes de torcedores. Desde 1995, quando 101 torcedores ficaram
feridos e um morreu durante uma batalha campal no estádio do Pacaembu, autoridades
têm focado as ações de enfrentamento à violência no futebol em grupos uniformizados,
alguns proibidos de frequentar estádios. Porém, a postura meramente repressiva contra
torcidas organizadas é ineficaz em uma sociedade que registra mais de 61000 homicídios
por ano. “É impossível dissociar a escalada de violência no futebol do panorama de
desordem pública, social, econômica e política vivida pelo país”, de acordo com um
doutor em sociologia do esporte.
Disponível em: https://brasil.elpais.com. Acesso em: 22 jun. 2019 (adaptado).
Nesse texto, a violência no futebol está caracterizada como um(a)
A)
problema social localizado numa região do país.
B)
desafio para as torcidas organizadas dos clubes.
C)
reflexo da precariedade da organização social no país.
D)
inadequação de espaço nos estádios para receber o público.
E)
consequência da insatisfação dos clubes com a organização dos jogos.
Questão 20
Seis em cada dez pessoas com 15 anos ou mais não praticam esporte ou atividade
física. São mais de 100 milhões de sedentários. Esses são dados do estudo Práticas de
esporte e atividade física, da Pnad 2015, realizado pelo IBGE. A falta de tempo e de
interesse são os principais motivos apontados para o sedentarismo. Paralelamente,
73,3% das pessoas de 15 anos ou mais afirmaram que o poder público deveria investir
em esporte ou atividades físicas. Observou-se uma relação direta entre escolaridade e
renda na realização de esportes ou atividades físicas. Enquanto 17,3% das pessoas que
não tinham instrução realizavam diversas práticas corporais, esse percentual chegava a
56,7% das pessoas com superior completo. Entre as pessoas que têm práticas de esporte
e atividade física regulares, o percentual de praticantes ia de 31,1%, na classe sem
rendimento, a 65,2%, na classe de cinco salários mínimos ou mais. A falta de tempo foi
mais declarada pela população adulta, com destaque entre as pessoas de 25 a 39 anos.
Entre os adolescentes de 15 a 17 anos, o principal motivo foi não gostarem ou não
quererem. Já o principal motivo para praticar esporte, declarado por 11,2 milhões de
pessoas, foi relaxar ou se divertir, seguido de melhorar a qualidade de vida ou o
bem-estar. A falta de instalação esportiva acessível ou nas proximidades foram motivos
pouco citados, demonstrando que a não prática estaria menos associada à infraestrutura
disponível.
Disponível em: www.esporte.gov.br. Acesso em: 9 ago. 2017 (adaptado).
Com base na pesquisa e em uma visão ampliada de saúde, para a prática regular de
exercícios ter influência significativa na saúde dos brasileiros, é necessário o
desenvolvimento de estratégias que
A)
promovam a melhoria da aptidão física da população, dedicando-se mais tempo
aos esportes.
B)
combatam o sedentarismo presente em parcela significativa da população no
território nacional.
C)
facilitem a adoção da prática de exercícios, com ações relacionadas à educação e
à distribuição de renda.
D)
auxiliem na construção de mais instalações esportivas e espaços adequados para
a prática de atividades físicas e esportes.
E)
estimulem o incentivo fiscal para a iniciativa privada destinar verbas aos
programas nacionais de promoção da saúde pelo esporte.
Questão 21
A escrava
— Admira-me —, disse uma senhora de sentimentos sinceramente abolicionistas —;
faz-me até pasmar como se possa sentir, e expressar sentimentos escravocratas, no
presente século, no século dezenove! A moral religiosa e a moral cívica aí se erguem, e
falam bem alto esmagando a hidra que envenena a família no mais sagrado santuário
seu, e desmoraliza, e avilta a nação inteira! Levantai os olhos ao Gólgota, ou percorrei-os
em torno da sociedade, e dizei-me:
— Para que se deu em sacrifício o Homem Deus, que ali exalou seu derradeiro
alento? Ah! Então não é verdade que seu sangue era o resgate do homem! É então uma
mentira abominável ter esse sangue comprado a liberdade!? E depois, olhai a
sociedade... Não vedes o abutre que a corrói constantemente!… Não sentis a
desmoralização que a enerva, o cancro que a destrói?
Por qualquer modo que encaremos a escravidão, ela é, e será sempre um grande
mal. Dela a decadência do comércio; porque o comércio e a lavoura caminham de mãos
dadas, e o escravo não pode fazer florescer a lavoura; porque o seu trabalho é forçado.
REIS, M. F. Úrsula e outras obras. Brasília: Câmara dos Deputados, 2018.
Inscrito na estética romântica da literatura brasileira, o conto descortina aspectos da
realidade nacional no século XIX ao
A)
revelar a imposição de crenças religiosas a pessoas escravizadas.
B)
apontar a hipocrisia do discurso conservador na defesa da escravidão.
C)
sugerir práticas de violência física e moral em nome do progresso material.
D)
relacionar o declínio da produção agrícola e comercial a questões raciais.
E)
ironizar o comportamento dos proprietários de terra na exploração do trabalho.
Questão 22
TEXTO I
Projeto Mural Eletrônico desenvolvido no INT, semelhante a um totem, promete
tornar o acesso à informação disponível para todos
A inclusão de pessoas com deficiência se constituiu um dos principais desafios e
preocupações para a sociedade ao longo das últimas décadas. E o uso da tecnologia tem
se revelado um aliado fundamental em muitas iniciativas voltadas para essa área.
Exemplo disso é uma das recentes criações do Instituto Nacional de Tecnologia (INT) —
unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações
(MCTIC). Ali, com o objetivo de que as diferenças entre pessoas não sejam sinônimo de
obstáculos no acesso à informação ou na comunicação, engenheiros e tecnólogos vêm
trabalhando no desenvolvimento do projeto Mural Eletrônico.
O Mural Eletrônico nasceu da necessidade de promover a inclusão nas escolas. Com
interface multimídia e interativa, todos têm a possibilidade de acessar o Mural Eletrônico.
Por meio do equipamento, podem ser disponibilizados vídeos com Libras, leitura sonora
de textos, que também estarão acessíveis em uma plataforma de braille dinâmico, ao lado
do teclado.
KIFFER, D. Inclusão ampla e irrestrita. Rio Pesquisa, n. 36, set. 2016 (adaptado).
TEXTO II
Projeto Surdonews, desenvolvido na UFRJ, garante acesso de surdos à informação
e contribui para sua “inclusão científica”
Para não permitir que a falta de informação seja um fator para o isolamento e a
inacessibilidade da comunidade surda, a jornalista e pesquisadora Roberta Savedra
Schiaffino criou o projeto “Surdonews: montando os quebra-cabeças das notícias para o
surdo”. Trata-se de uma página no Facebook, com notícias constantemente atualizadas e
apresentadas por surdos em Libras, e veiculadas por meio de vídeos.
A ideia de criar o projeto surgiu quando Roberta, ela própria surda profunda, ainda
cursava o mestrado. Para isso, ela procurou traçar um diagnóstico do conhecimento
informal entre as pessoas com surdez. Ela entrevistou cinquenta alunos surdos do ensino
fundamental e viu que eles tinham muita dificuldade de ler, além de não captar a notícia
falada. “Isso é muito grave, pois 90% do saber de um indivíduo vem do conhecimento
informal, adquirido em feiras científicas, conversas, cinema, teatro, incluindo a mídia, por
todas as suas possibilidades disseminadoras”, explica a pesquisadora. “Prezamos pelo
conteúdo científico em nossas pautas. Contudo, independentemente disso, nosso
principal trabalho é, além de informar e atualizar, fazer com que os textos não sejam
empobrecidos no processo de ‘tradução’ e, sim, acessíveis”.
KIFFER, D. Comunicação sem barreiras. Rio Pesquisa, n. 37, dez. 2016 (adaptado).
Considerando-se o tema tecnologias e acessibilidade, os textos I e II aproximam-se
porque apresentam projetos que
A)
garantem a igualdade entre as pessoas.
B)
foram criados por uma pesquisadora surda.
C)
tiveram origem em um curso de pós-graduação.
D)
estão circunscritos ao espaço institucional da escola.
E)
têm como objetivo a disseminação do conhecimento.
Questão 23
Mas seu olhar verde, inconfundível, impressionante, iluminava com sua luz misteriosa
as sombrias arcadas superciliares, que pareciam queimadas por ela, dizia logo a sua
origem cruzada e decantada através das misérias e dos orgulhos de homens de aventura,
contadores de histórias fantásticas, e de mulheres caladas e sofredoras, que
acompanhavam os maridos e amantes através das matas intermináveis, expostas às
febres, às feras, às cobras do sertão indecifrável, ameaçador e sem fim, que elas
percorriam com a ambição única de um “pouso” onde pudessem viver, por alguns dias, a
vida ilusória de família e de lar, sempre no encalço dos homens, enfebrados pela procura
do ouro e do diamante.
PENNA, C. Fronteira. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s/d.
Ao descrever os olhos de Maria Santa, o narrador estabelece correlações que refletem a
A)
caracterização da personagem como mestiça.
B)
construção do enredo de conquistas da família.
C)
relação conflituosa das mulheres e seus maridos.
D)
nostalgia do desejo de viver como os antepassados.
E)
marca de antigos sofrimentos no fluxo de consciência.
Questão 24
O complexo de falar difícil
O que importa realmente é que o(a) detentor(a) do notável saber jurídico saiba
quando e como deve fazer uso desse português versão 2.0, até porque não tem
necessidade de alguém entrar numa padaria de manhã com aquela cara de sono falando
o seguinte: “Por obséquio, Vossa Senhoria teria a hipotética possibilidade de estabelecer
com minha pessoa uma relação de compra e venda, mediante as imposições dos códigos
Civil e do Consumidor, para que seja possível a obtenção de 10 pãezinhos em
temperatura estável para que a relação pecuniária no valor de 5 reais seja plenamente
legítima e capaz de saciar minha fome matinal?”.
O problema é que temos uma cultura de valorizar quem demonstra ser inteligente ao
invés de valorizar quem é. Pela nossa lógica, todo mundo que fala difícil tende a ser mais
inteligente do que quem valoriza o simples, e 99,9% das pessoas que estivessem na
padaria iriam ficar boquiabertas se alguém fizesse uso das palavras que eu disse acima
em plenas 7 da manhã em vez de dizer: “Bom dia! O senhor poderia me vender cinco
reais de pão francês?”.
Agora entramos na parte interessante: o que realmente é falar difícil? Simplesmente
fazer uso de palavras que a maioria não faz ideia do que seja é um ato de falar difícil? Eu
penso que não, mas é assim que muita gente age. Falar difícil é fazer uso do simples,
mas com coerência e coesão, deixar tudo amarradinho gramaticalmente falando. Falar
difícil pode fazer alguém parecer inteligente, mas não por muito tempo. É claro que em
alguns momentos não temos como fugir do português rebuscado, do juridiquês
propriamente dito, como no caso de documentos jurídicos, entre outros.
ARAÚJO, H. Disponível em: www.diariojurista.com. Acesso em: 20 nov. 2021 (adaptado).
Nesse artigo de opinião, ao fazer uso de uma fala rebuscada no exemplo da compra do
pão, o autor evidencia a importância de(a)
A)
se ter um notável saber jurídico.
B)
valorização da inteligência do falante.
C)
falar difícil para demonstrar inteligência.
D)
coesão e da coerência em documentos jurídicos.
E)
adequação da linguagem à situação de comunicação.
Questão 25
A conquista da medalha de prata por Rayssa Leal, no skate street nos Jogos
Olímpicos, é exemplo da representatividade feminina no esporte, avalia a âncora do jornal
da rede de televisão da CNN. A apresentadora, que também anda de skate, celebrou a
vitória da brasileira, que entrou para a história como a atleta mais nova a subir num pódio
defendendo o Brasil. “Essa representatividade do esporte nos Jogos faz pensarmos que
não temos que ficar nos encaixando em nenhum lugar. Posso gostar de passar notícia e,
mesmo assim, gostar de skate, subir montanha, mergulhar, andar de bike, fazer yoga.
Temos que parar de ficar enquadrando as pessoas dentro de regras. A gente vive num
padrão no qual a menina ganha boneca, mas por que também não fazer um esporte de
aventura? Por que o homem pode se machucar, cair de joelhos, e a menina tem que estar
sempre lindinha dentro de um padrão? Acabamos limitando os talentos das pessoas”,
afirmou a jornalista, sobre a prática do skate por mulheres.
Disponível em: www.cnnbrasil.com.br. Acesso em: 31 out. 2021 (adaptado).
O discurso da jornalista traz questionamentos sobre a relação da conquista da skatista
com a
A)
conciliação do jornalismo com a prática do skate.
B)
inserção das mulheres na modalidade skate street.
C)
desconstrução da noção do skate como modalidade masculina.
D)
vanguarda de ser a atleta mais jovem a subir no pódio olímpico.
E)
conquista de medalha nos Jogos Olímpicos de Tóquio.
Questão 26
Assentamento
Zanza daqui
Zanza pra acolá
Fim de feira, periferia afora
A cidade não mora mais em mim
Francisco, Serafim
Vamos embora
Ver o capim
Ver o baobá
Vamos ver a campina quando flora
A piracema, rios contravim
Binho, Bel, Bia, Quim
Vamos embora
Quando eu morrer
Cansado de guerra
Morro de bem
Com a minha terra:
Cana, caqui
Inhame, abóbora
Onde só vento se semeava outrora
Amplidão, nação, sertão sem fim
Ó Manuel, Miguilim
Vamos embora
BUARQUE, C. As cidades. Rio de Janeiro: RCA, 1998 (fragmento).
Nesse texto, predomina a função poética da linguagem. Entretanto, a função emotiva
pode ser identificada no verso:
A)
“Zanza pra acolá”.
B)
“Fim de feira, periferia afora”.
C)
“A cidade não mora mais em mim”.
D)
“Onde só vento se semeava outrora”.
E)
“Ó Manuel, Miguilim”.
Questão 27
Disponível em: https://viva-porto.pt. Acesso em: 24 nov. 2021 (adaptado).
A articulação entre os elementos verbais e os não verbais do texto tem como propósito
desencadear a
A)
identificação de distinções entre mulheres e homens.
B)
revisão de representações estereotipadas de gênero.
C)
adoção de medidas preventivas de combate ao sexismo.
D)
ratificação de comportamentos femininos e masculinos.
E)
retomada de opiniões a respeito da diversidade dos papéis sociais.
Questão 28
As línguas silenciadas do Brasil
Para aprender a língua de seu povo, o professor Txaywa Pataxó, de 29 anos,
precisou estudar os fatores que, por diversas vezes, quase provocaram a extinção da
língua patxôhã. Mergulhou na história do Brasil e descobriu fatos violentos que
dispersaram os pataxós, forçados a abandonar a própria língua para escapar da
perseguição. “Os pataxós se espalharam, principalmente, depois do Fogo de 1951.
Queimaram tudo e expulsaram a gente das nossas terras. Isso constrange o nosso povo
até hoje”, conta Txaywa, estudante da Universidade Federal de Minas Gerais e professor
na aldeia Barra Velha, região de Porto Seguro (BA). Mais de quatro décadas depois,
membros da etnia retornaram ao antigo local e iniciaram um movimento de recuperação
da língua patxôhã. Os filhos de Sameary Pataxó já são fluentes — e ela, que se mudou
quando já era adulta para a aldeia, tenta aprender um pouco com eles. “É a nossa
identidade. Você diz quem você é por meio da sua língua”, afirma a professora de ensino
fundamental sobre a importância de restaurar a língua dos pataxós. O patxôhã está entre
as línguas indígenas faladas no Brasil: o IBGE estimou 274 línguas no último censo.
A publicação Povos indígenas no Brasil 2011/2016, do Instituto Socioambiental, calcula
160. Antes da chegada dos portugueses, elas totalizavam mais de mil.
Disponível em: https://brasil.elpais.com. Acesso em: 11 jun. 2019 (adaptado).
O movimento de recuperação da língua patxôhã assume um caráter identitário peculiar na
medida em que
A)
denuncia o processo de perseguição histórica sofrida pelos povos indígenas.
B)
conjuga o ato de resistência étnica à preservação da memória cultural.
C)
associa a preservação linguística ao campo da pesquisa acadêmica.
D)
estimula o retorno de povos indígenas a suas terras de origem.
E)
aumenta o número de línguas indígenas faladas no Brasil.
Questão 29
Esaú e Jacó
Bárbara entrou, enquanto o pai pegou da viola e passou ao patamar de pedra, à
porta da esquerda. Era uma criaturinha leve e breve, saia bordada, chinelinha no pé. Não
se lhe podia negar um corpo airoso. Os cabelos, apanhados no alto da cabeça por um
pedaço de fita enxovalhada, faziam-lhe um solidéu natural, cuja borla era suprida por um
raminho de arruda. Já vai nisto um pouco de sacerdotisa. O mistério estava nos olhos.
Estes eram opacos, não sempre nem tanto que não fossem também lúcidos e agudos, e
neste último estado eram igualmente compridos; tão compridos e tão agudos que
entravam pela gente abaixo, revolviam o coração e tornavam cá fora, prontos para nova
entrada e outro revolvimento. Não te minto dizendo que as duas sentiram tal ou qual
fascinação. Bárbara interrogou-as; Natividade disse ao que vinha e entregou-lhe os
retratos dos filhos e os cabelos cortados, por lhe haverem dito que bastava.
— Basta, confirmou Bárbara. Os meninos são seus filhos?
— São.
ASSIS, M. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
No relato da visita de duas mulheres ricas a uma vidente no Morro do Castelo, a ironia —
um dos traços mais representativos da narrativa machadiana — consiste no
A)
modo de vestir dos moradores do morro carioca.
B)
senso prático em relação às oportunidades de renda.
C)
mistério que cerca as clientes de práticas de vidência.
D)
misto de singeleza e astúcia dos gestos da personagem.
E)
interesse do narrador pelas figuras femininas ambíguas.
Questão 30
A senhora manifestava-se por atos, por gestos, e sobretudo por um certo silêncio,
que amargava, que esfolava. Porém desmoralizar escancaradamente o marido, não era
com ela. [...]
As negras receberam ordem para meter no serviço a gente do tal compadre Silveira:
as cunhadas, ao fuso; os cunhados, ao campo, tratar do gado com os vaqueiros; a mulher
e as irmãs, que se ocupassem da ninhada. Margarida não tivera filhos, e como os
desejasse com a força de suas vontades, tratava sempre bem aos pequenitos e às mães
que os estavam criando. Não era isso uma sentimentalidade cristã, uma ternura, era o
egoísta e cru instinto da maternidade, obrando por mera simpatia carnal. Quanto ao pai
do lote (referia-se ao Antônio), esse que fosse ajudar ao vaqueiro das bestas.
Ordens dadas, o Quinquim referendava. Cada um moralizava o outro, para
moralizar-se.
PAIVA, M. O. Dona Guidinha do Poço.Rio de Janeiro: Tecnoprint, s/d.
No trecho do romance naturalista, a forma como o narrador julga comportamentos e
emoções das personagens femininas revela influência do pensamento
A)
capitalista, marcado pela distribuição funcional do trabalho.
B)
liberal, buscando a igualdade entre pessoas escravizadas e livres.
C)
científico, considerando o ser humano como um fenômeno biológico.
D)
religioso, fundamentado na fé e na aceitação dos dogmas do cristianismo.
E)
afetivo, manifesto na determinação de acolher familiares e no respeito mútuo.
Questão 31
Era o êxodo da seca de 1898. Uma ressurreição de cemitérios antigos — esqueletos
redivivos, com o aspecto terroso e o fedor das covas podres.
Os fantasmas estropiados como que iam dançando, de tão trôpegos e trêmulos, num
passo arrastado de quem leva as pernas, em vez de ser levado por elas.
Andavam devagar, olhando para trás, como quem quer voltar. Não tinham pressa em
chegar, porque não sabiam aonde iam. Expulsos de seu paraíso por espadas de fogo,
iam, ao acaso, em descaminhos, no arrastão dos maus fados.
Fugiam do sol e o sol guiava-os nesse forçado nomadismo.
Adelgaçados na magreira cômica, cresciam, como se o vento os levantasse. E os
braços afinados desciam-lhes aos joelhos, de mãos abanando.
Vinham escoteiros. Menos os hidrópicos — de ascite consecutiva à alimentação
tóxica — com os fardos das barrigas alarmantes.
Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma. Eram os retirantes. Nada
mais.
ALMEIDA, J. A. A bagaceira. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1978.
Os recursos composicionais que inserem a obra no chamado “Romance de 30” da
literatura brasileira manifestam-se aqui no(a)
A)
desenho cru da realidade dramática dos retirantes.
B)
indefinição dos espaços para efeito de generalização.
C)
análise psicológica da reação dos personagens à seca.
D)
engajamento político do narrador ante as desigualdades.
E)
contemplação lírica da paisagem transformada em alegoria.
Questão 32
Disponível em: https://tab.uol.com.br. Acesso em: 25 ago. 2017 (adaptado).
O texto sobre os chamados nativos digitais traz informações com a função de
A)
propor ações específicas para cada etapa da infância.
B)
estabelecer regras que devem ser seguidas à risca.
C)
explicar os efeitos do acesso precoce à internet.
D)
determinar a incorporação de rituais à educação dos filhos.
E)
educar com base em um conjunto de estratégias formativas.
Questão 33
Notas
Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir
o cadáver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, essa, tocheiros, convites,
convidados que entravam, lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão à família,
alguns tristes, todos sérios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d’água benta, o
fechar do caixão, a prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa, e o levantam, e
o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lágrimas da
família, e vão até o coche fúnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam as
correias, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um... Isto que parece um simples
inventário eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não
escrevo.
ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br.
Acesso em: 25 jul. 2022.
O recurso linguístico que permite a Machado de Assis considerar um capítulo de
Memórias póstumas de Brás Cubas como inventário é a
A)
enumeração de objetos e fatos.
B)
predominância de linguagem objetiva.
C)
ocorrência de período longo no trecho.
D)
combinação de verbos no presente e no pretérito.
E)
presença de léxico do campo semântico de funerais.
Questão 34
Criado há cerca de 20 anos na Califórnia, o mountainboard é um esporte de aventura
que utiliza uma espécie de skate off-road para realizar manobras similares às das
modalidades de snowboard, surf e do próprio skate. A atividade chegou ao Brasil em
1997 e hoje possui centenas de praticantes, um circuito nacional respeitável e mais de
uma dezena de pistas espalhadas pelo país. Segundo consta na história oficial, o
mountainboard foi criado por praticantes de snowboard que sentiam falta de praticar o
esporte nos períodos sem neve. Para isso, eles desenvolveram um equipamento bem
simples: uma prancha semelhante ao modelo utilizado na neve (menor e um pouco
menos flexível), com dois eixos bem resistentes, alças para encaixar os pés e quatro
pneus com câmaras de ar para regular a velocidade que pode ser alcançada em
diferentes condições. Com essa configuração, o esporte se mostrou possível em diversos
tipos de terreno: grama, terra, pedras, asfalto e areia. Além desses pisos, também é
possível procurar pelas próprias trilhas para treinar as manobras.
Disponível em: www.webventure.com.br. Acesso em: 19 jun. 2019.
A história da prática do mountainboard representa uma das principais marcas das
atividades de aventura, caracterizada pela
A)
competitividade entre seus praticantes.
B)
atividade com padrões técnicos definidos.
C)
modalidade com regras predeterminadas.
D)
criatividade para adaptações a novos espaços.
E)
necessidade de espaços definidos para a sua realização.
Questão 35
Ser cronista
Sei que não sou, mas tenho meditado ligeiramente no assunto.
Crônica é um relato? É uma conversa? É um resumo de um estado de espírito? Não
sei, pois antes de começar a escrever para o Jornal do Brasil, eu só tinha escrito
romances e contos.
E também sem perceber, à medida que escrevia para aqui, ia me tornando pessoal
demais, correndo o risco de em breve publicar minha vida passada e presente, o que não
pretendo. Outra coisa notei: basta eu saber que estou escrevendo para o jornal, isto é,
para algo aberto facilmente por todo o mundo, e não para um livro, que só é aberto por
quem realmente quer, para que, sem mesmo sentir, o modo de escrever se transforme.
Não é que me desagrade mudar, pelo contrário. Mas queria que fossem mudanças mais
profundas e interiores que não viessem a se refletir no escrever. Mas mudar só porque
isso é uma coluna ou uma crônica? Ser mais leve só porque o leitor assim o quer?
Divertir? Fazer passar uns minutos de leitura? E outra coisa: nos meus livros quero
profundamente a comunicação profunda comigo e com o leitor. Aqui no jornal apenas falo
com o leitor e agrada-me que ele fique agradado. Vou dizer a verdade: não estou
contente.
LISPECTOR, C. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
No texto, ao refletir sobre a atividade de cronista, a autora questiona características do
gênero crônica, como
A)
relação distanciada entre os interlocutores.
B)
articulação de vários núcleos narrativos.
C)
brevidade no tratamento da temática.
D)
descrição minuciosa dos personagens.
E)
público leitor exclusivo.
Questão 36
Projeto na Câmara de BH quer a vacinação gratuita de cães contra a leishmaniose
A doença é grave e vem causando preocupação na região metropolitana da capital
mineira
Ela é uma doença grave, transmitida pela picada do mosquito-palha, e afeta tanto os
seres humanos quanto os cachorros: a leishmaniose. Por ser um problema de saúde
pública, a doença pode ganhar uma ação preventiva importante, caso um projeto de lei
seja aprovado na Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH). Diante do alto número de
casos da doença na Grande BH, a Comissão de Saúde e Saneamento da CMBH aprovou
a proposta de realização de campanhas públicas de vacinação gratuita de cães contra a
leishmaniose, tema do PL 404/17, apreciado pelo colegiado em reunião ordinária, no dia 6
de dezembro.
Disponível em: https://revistaencontro.com.br. Acesso em: 11 dez. 2017.
Essa notícia, além de cumprir sua função informativa, assume o papel de
A)
fiscalizar as ações de saúde e saneamento da cidade.
B)
defender os serviços gratuitos de atendimento à população.
C)
conscientizar a população sobre grave problema de saúde pública.
D)
propor campanhas para a ampliação de acesso aos serviços públicos.
E)
responsabilizar os agentes públicos pela demora na tomada de decisões.
Questão 37
“Vida perfeita” em redes sociais pode afetar a saúde mental
Nas várias redes sociais que povoam a internet, os chamados digital influencers
estão sempre felizes e pregam a felicidade como um estilo de vida. Essas pessoas
espalham conteúdo para milhares de seguidores, ditando tendência e mostrando um
estilo de vida sonhado por muitos, como o corpo esbelto, viagens incríveis, casas
deslumbrantes, carros novos e alegria em tempo integral, algo bem improvável de ocorrer
o tempo todo, aponta Carla Furtado, mestre em psicologia e fundadora do Instituto
Feliciência.
A problemática pode surgir com a busca incessante por essa felicidade, que gera
efeitos colaterais em quem consome diariamente a “vida perfeita” de outros. Daí vem o
conceito de positividade tóxica: a expressão tem sido usada para abordar uma espécie de
pressão pela adoção de um discurso positivo, aliada a uma vida editada para as redes
sociais. Para manter a saúde mental e evitar ser atingido pela positividade tóxica, o uso
racional das redes sociais é o mais indicado, aconselha a médica psiquiatra Renata
Nayara Figueiredo, presidente da Associação Psiquiátrica de Brasília (APBr).
Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: 21 nov. 2021 (adaptado).
Associada ao ideário de uma “vida perfeita”, a positividade tóxica mencionada no texto é
um fenômeno social recente, que se constitui com base em
A)
representações estereotipadas e superficiais de felicidade.
B)
ressignificações contemporâneas do conceito de alegria.
C)
estilos de vida inacessíveis para a sociedade brasileira.
D)
atitudes contraditórias de influenciadores digitais.
E)
padrões idealizados e nocivos de beleza física.
Questão 38
TEXTO I
EL GRECO. Laocoonte. Óleo sobre tela, 1,37cm x 1,72cm. National Gallery of Art, Washington,
Estados Unidos, circa 1610-1614.
Disponível em: https://images.mga.gov. Acesso em: 28 jun. 2019 (adaptado).
TEXTO II
Essa impressionante obra apresenta o sacerdote Laocoonte sendo punido pelos
deuses por tentar alertar os troianos da ameaça do cavalo de Troia, que escondia um
grupo de soldados gregos. Enviadas pelos deuses, serpentes marinhas são vistas
matando Laocoonte e seus dois filhos como forma de punição.
KAY, A. In: FARTHING, S. (Org.). Tudo sobre arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011 (adaptado).
Produzida no início do século XVII, a obra maneirista distingue-se pela
A)
representação da nudez masculina.
B)
distorção ao representar a figura humana.
C)
evocação de um fato da cultura clássica grega.
D)
presença do tema da morte como punição da família.
E)
utilização da perspectiva para integrar os diferentes planos.
Questão 39
TEXTO I
JUDD, D. Sem título. 1969.
Disponível em: https://dasartes.com.br. Acesso em: 16 jun. 2022.
TEXTO II
Embora não fosse um grupo ou um movimento organizado, o Minimalismo foi um dos
muitos rótulos (incluindo estruturas primárias, objetos unitários, arte ABC e Cool Art)
aplicados pelos críticos para descrever estruturas aparentemente simples que alguns
artistas estavam criando. Quando a arte minimalista começou a surgir, muitos críticos e
um público opinativo julgaram-na fria, anônima e imperdoável. Os materiais industriais
pré-fabricados frequentemente usados não pareciam “arte”.
DEMPSEY, A. Estilos, escolas e movimentos. São Paulo: Cosac & Naify, 2003 (adaptado).
De acordo com os textos I e II, compreende-se que a obra minimalista é uma
A)
representação da simplicidade pelo artista.
B)
exploração da técnica da escultura cubista.
C)
valorização do cotidiano por meio da geometria.
D)
utilização da complexidade dos elementos formais.
E)
combinação de formas sintéticas no espaço utilizado.
Questão 40
Firmo, o vaqueiro
No dia seguinte, à hora em que saía o gado, estava eu debruçado à varanda quando
vi o cafuzo que preparava o animal viajeiro:
— Raimundinho, como vai ele?...
De longe apontou a palhoça.
— Sim.
O braço caiu-lhe, olhou-me algum tempo comovido; depois, saltando para o animal,
levou o polegar à boca fazendo estalar a unha nos dentes: “Às quatro horas da manhã...
Atirei um verso e disse, para bulir com ele: Pega, velho! Não respondeu. Tio Firmo,
mesmo velho e doente, não era homem para deixar um verso no chão... Fui ver,
coitado!... estava morto”. E deu de esporas para que eu não lhe visse as lágrimas.
NETTO, C. In: MARCHEZAN, L. G. (Org.). O conto regionalista. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
A passagem registra um momento em que a expressividade lírica é reforçada pela
A)
plasticidade da imagem do rebanho reunido.
B)
sugestão da firmeza do sertanejo ao arrear o cavalo.
C)
situação de pobreza encontrada nos sertões brasileiros.
D)
afetividade demonstrada ao noticiar a morte do cantador.
E)
preocupação do vaqueiro em demonstrar sua virilidade.
Questão 41
O bebê de tarlatana rosa
— [...] Na terça desliguei-me do grupo e caí no mar alto da depravação, só, com uma
roupa leve por cima da pele e todos os maus instintos fustigados. De resto a cidade
inteira estava assim. É o momento em que por trás das máscaras as meninas confessam
paixões aos rapazes, é o instante em que as ligações mais secretas transparecem, em
que a virgindade é dúbia, e todos nós a achamos inútil, a honra uma caceteação, o bom
senso uma fadiga. Nesse momento tudo é possível, os maiores absurdos, os maiores
crimes; nesse momento há um riso que galvaniza os sentidos e o beijo se desata
naturalmente.
Eu estava trepidante, com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida. Nada de
raparigas do galarim perfumadas e por demais conhecidas, nada do contato familiar, mas
o deboche anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar, acabar, continuar. Era ignóbil.
Felizmente muita gente sofre do mesmo mal no carnaval.
RIO, J. Dentro da noite. São Paulo: Antiqua, 2002.
No texto, o personagem vincula ao carnaval atitudes e reações coletivas diante das quais
expressa
A)
consagração da alegria do povo.
B)
atração e asco perante atitudes libertinas.
C)
espanto com a quantidade de foliões nas ruas.
D)
intenção de confraternizar com desconhecidos.
E)
reconhecimento da festa como manifestação cultural.
Questão 42
10 de maio
Fui na delegacia e falei com o tenente. Que homem amavel! Se eu soubesse que ele
era tão amavel, eu teria ido na delegacia na primeira intimação. [...] O tenente interessou-
se pela educação dos meus filhos. Disse-me que a favela é um ambiente propenso, que
as pessoas tem mais possibilidade de delinquir do que tornar-se util a patria e ao país.
Pensei: se ele sabe disto, porque não faz um relatorio e envia para os politicos? O senhor
Janio Quadros, o Kubstchek e o Dr. Adhemar de Barros? Agora falar para mim, que sou
uma pobre lixeira. Não posso resolver nem as minhas dificuldades.... O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome tambem
é professora.
Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças.
JESUS, C. M. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2014.
A partir da intimação recebida pelo filho de 9 anos, a autora faz uma reflexão em que
transparece a
A)
lição de vida comunicada pelo tenente.
B)
predisposição materna para se emocionar.
C)
atividade política marcante da comunidade.
D)
resposta irônica ante o discurso da autoridade.
E)
necessidade de revelar seus anseios mais íntimos.
Questão 43
Vanda vinha do interior de Minas Gerais e de dentro de um livro de Charles Dickens.
Sem dinheiro para criá-la, sua mãe a dera, com seus sete anos, a uma conhecida. Ao
recebê-la, a mulher perguntou o que a garotinha gostava de comer. Anotou tudo num
papel. Mal a mãe virou as costas, no entanto, a fulana amassou a lista e, como uma vilã
de folhetim, decretou: “A partir de hoje, você não vai mais nem sentir o cheiro dessas
comidas!”.
Vanda trabalhou lá até os quinze anos, quando recebeu a carta de uma prima com
uma nota de cem cruzeiros, saiu de casa com a roupa do corpo e fugiu num ônibus para
São Paulo.
Todas as vezes que eu e minha irmã a importunávamos com nossas demandas de
criança mimada, ela nos contava histórias da infância de gata-borralheira, fazia-nos
apertar seu nariz quebrado por uma das filhas da “patroa” com um rolo de amassar pão e
nos expulsava da cozinha: “Sai pra lá, peste, e me deixa acabar essa janta”.
PRATA, A. Nu de botas. São Paulo: Cia. das Letras, 2013 (adaptado).
Pela ótica do narrador, a trajetória da empregada de sua casa assume um efeito
expressivo decorrente da
A)
citação a referências literárias tradicionais.
B)
alusão à inocência das crianças da época.
C)
estratégia de questionar a bondade humana.
D)
descrição detalhada das pessoas do interior.
E)
representação anedótica de atos de violência.
Questão 44
TEXTO I
SILVEIRA, R. In absentia, 1983. Instalação, 17ª Bienal de São Paulo.
Disponível em: www.bienal.org.br. Acesso em: 1 set. 2016 (adaptado).
TEXTO II
O termo ready-made foi criado por Marcel Duchamp (1887-1968) para designar um
tipo de objeto, por ele inventado, que consiste em um ou mais artigos de uso cotidiano,
produzidos em massa, selecionados sem critérios estéticos e expostos como obras de
arte em espaços especializados (museus e galerias). Seu primeiro ready-made, de 1912,
é uma roda de bicicleta montada sobre um banquinho (Roda de bicicleta). Ao transformar
qualquer objeto em obra de arte, o artista realiza uma crítica radical ao sistema da arte.
Disponível em: www.bienal.org.br. Acesso em: 1 set. 2016 (adaptado).
A instalação In absentia propõe um diálogo com o ready-made Roda de bicicleta,
demonstrando que
A)
as formas de criticar obras do passado se repetem.
B)
a recorrência de temas marca a arte do final do século XX.
C)
as criações desmistificam os valores estéticos estabelecidos.
D)
o distanciamento temporal permite a transformação dos referenciais estéticos.
E)
o objeto ausente sugere a degradação da forma superando o modelo artístico.
Questão 45
O Recife fervilhava no começo da década de 1990, e os artistas trabalhavam para
resgatar o prestígio da cultura pernambucana. Era preciso se inspirar, literalmente, nas
raízes sobre as quais a cidade se construiu. Foi aí que, em 1992, com a publicação de um
manifesto escrito pelo músico e jornalista Fred Zero Quatro, da banda Mundo Livre S/A,
nasceu o manguebeat. O nome vem de “mangue”, vegetação típica da região, e “beat”,
para representar as batidas e as influências musicais que o movimento abraçaria a partir
dali. Era a hora e a vez de os caranguejos — aos quais os músicos recifenses gostavam
de se comparar — mostrarem as caras: o maracatu e suas alfaias se misturaram com as
batidas do hip-hop, as guitarras do rock, elementos eletrônicos e o sotaque recifense de
Chico Science. A busca pelo novo rendeu uma perspectiva diferente do Brasil ao olhar
para o Recife. A cidade deixou de ser o lugar apenas do frevo e do carnaval,
transformando-se na ebulição musical que continua a acontecer mesmo após os 25 anos
do lançamento do primeiro disco da Nação Zumbi, Da lama ao caos.
FORCIONI, G. et al. O mangue está de volta. Revista Esquinas, n. 87, set. 2019 (adaptado).
Chico Science foi fundamental para a renovação da música pernambucana, fato que se
deu pela
A)
utilização de aparelhos musicais eletrônicos em lugar dos instrumentos
tradicionais.
B)
ocupação de espaços da natureza local para a produção de eventos musicais
memoráveis.
C)
substituição de antigas práticas musicais, como o frevo, por melodias e harmonias
inovadoras.
D)
recuperação de composições tradicionais folclóricas e sua apresentação em
grandes festivais.
E)
integração de referenciais culturais de diferentes origens, criando uma nova
combinação estética.
Questão 46
Espera, resignado, o dia 13 daquele mês porque, em tal data, usança avoenga lhe
faculta sondar o futuro, interrogando a providência. É a experiência tradicional de Santa
Luzia. No dia 12 ao anoitecer expõe ao relento, em linha, seis pedrinhas de sal, que
representam, em ordem sucessiva da esquerda para a direita, os seis meses vindouros,
de janeiro a junho. Ao alvorecer de 13 observa-as: se estão intactas, pressagiam a seca;
se a primeira apenas se deliu, transmudada em aljôfar límpido, é certa a chuva em
janeiro; se a segunda, em fevereiro; se a maioria ou todas, é inevitável o inverno
benfazejo. Esta experiência é belíssima.
CUNHA, E. Os sertões. São Paulo: Editora Três, 1984.
No experimento descrito, a relação com a paisagem e com a religiosidade permite que o
sertanejo seja
A)
afeito à devoção ao aceitar destinos sacralizados.
B)
acostumado à pobreza ao admitir acasos naturais.
C)
habituado ao solo ao conhecer terrenos cultiváveis.
D)
íntimo à Caatinga ao interpretar condições ambientais.
E)
próximo à vegetação ao identificar espécies arbustivas.
Questão 47
Sempre que a relevância do discurso entra em jogo, a questão torna-se política por
definição, pois é o discurso que faz do homem um ser político. E tudo que os homens
fazem, sabem ou experimentam só tem sentido na medida em que pode ser discutido.
Haverá, talvez, verdades que ficam além da linguagem e que podem ser de grande
relevância para o homem no singular, isto é, para o homem que, seja o que for, não é um
ser político. Mas homens no plural, isto é, os homens que vivem e se movem e agem
neste mundo, só podem experimentar o significado das coisas por poderem falar e ser
inteligíveis entre si e consigo mesmos.
ARENDT, H. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.
No trecho, a filósofa Hannah Arendt mostra a importância da linguagem no processo de
A)
entendimento da cultura.
B)
aumento da criatividade.
C)
percepção da individualidade.
D)
melhoria da técnica.
E)
construção da sociabilidade.
Questão 48
Eu estava pagando o sapateiro e conversando com um preto que estava lendo um
jornal. Ele estava revoltado com um guarda civil que espancou um preto e amarrou numa
árvore. O guarda civil é branco. E há certos brancos que transforma preto em bode
expiatório. Quem sabe se guarda civil ignora que já foi extinta a escravidão e ainda
estamos no regime da chibata?
JESUS, C. M. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2014.
O texto, que guarda a grafia original da autora, expõe uma característica da sociedade
brasileira, que é o(a):
A)
Racismo estrutural.
B)
Desemprego latente.
C)
Concentração de renda.
D)
Exclusão informacional.
E)
Precariedade da educação.
Questão 49
PAZ, A. D. Disponível em: www.ct.ufpb.br. Acesso em: 15 out. 2021 (adaptado).
A)
nível altimétrico.
B)
ciclo hidrológico.
C)
padrão climático.
D)
tectônica de placas.
E)
estrutura das rochas.
Questão 50
Na construção da ferrovia Madeira-Mamoré, o que dizer dos doentes, eternos
moribundos a vagar entre delírios febris, doses de quinino e corredores da morte? O
Hospital da Candelária era santuário e túmulo, monumento ao progresso científico e
preâmbulo da escuridão. Foi ali, com suas instalações moderníssimas, que médicos e
sanitaristas dirigiram seu combate aos males tropicais. As maiores vítimas, contudo,
permaneceriam na sombra à margem do palco, cobaias sem consolo, credores sem nome
de uma sociedade que não lhes concedera tempo algum para ser decifrada.
FOOT HARDMAN, F. Trem fantasma: modernidade na selva. São Paulo: Cia. das Letras, 1988 (adaptado).
No texto, há uma crítica ao modo de ocupação do espaço amazônico pautada na
A)
discrepância entre engenharia ambiental e equilíbrio da fauna.
B)
incoerência entre maquinaria estrangeira e controle da floresta.
C)
incompatibilidade entre investimento estatal e proteção aos nativos.
D)
competição entre farmacologia internacional e produtos da fitoterapia.
E)
contradição entre desenvolvimento nacional e respeito aos trabalhadores.
Questão 51
Uma nova economia surgiu em escala global no último quartel do século XX.
Chamo-a de informacional, global e em rede para identificar suas características
fundamentais e diferenciadas e enfatizar sua interligação. É informacional porque
depende basicamente de sua capacidade de gerar, processar e aplicar de forma eficiente
a informação baseada em conhecimentos. É global porque seus componentes estão
organizados em escala global, diretamente ou mediante uma rede de conexões entre
agentes econômicos. É rede porque é feita em uma rede global de interação entre redes
empresariais.
CASTELLS, M. A sociedade em rede — a era da informação: economia,
sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, 1999 (adaptado).
Qual mudança estrutural é resultado da forma de organização econômica descrita no
texto?
A)
Fabricação em série.
B)
Ampliação de estoques.
C)
Fragilização dos cartéis.
D)
Padronização de mercadorias.
E)
Desterritorialização da produção.
Questão 52
Olhar o Brasil e não ver o sertão
É como negar o queijo com a faca na mão
Esse gigante em movimento
Movido a tijolo e cimento
Precisa de arroz com feijão
Que tenha comida na mesa
Que agradeça sempre a grandeza
De cada pedaço de pão
Agradeça a Clemente
Que leva a semente
Em seu embornal
Zezé e o penoso balé
De pisar no cacau
Maria que amanhece o dia
Lá no milharal
VANDER LEE. Do Brasil. In: Pensei que fosse o céu: ao vivo. Rio de Janeiro: Indie Records, 2006 (fragmento).
A letra da canção valoriza uma dimensão do espaço rural brasileiro em sua relação com a
cidade ao ressaltar sua função de
A)
fornecer a mão de obra qualificada.
B)
incorporar a inovação tecnológica.
C)
preservar a diversidade biológica.
D)
promover a produção alimentar.
E)
garantir a moradia básica.
Questão 53
O número cada vez maior de mulheres letradas e interessadas pela literatura e pelas
novelas, muitas divulgadas em capítulos, seções, classificadas comumente como
folhetim, alçou a um gênero de ficção corrente já em 1840, fazendo parte do florescimento
da literatura nacional brasileira, instigando a formação e a ampliação de um público leitor
feminino, ávido por novidades, pelo apelo dos folhetins e “narrativas modernas” que
encenavam “os dramas e os conflitos de uma mulher em processo de transformação
patriarcal e provinciana que, progressivamente, começava a se abrir para modernizar
seus costumes”. No Segundo Reinado, as mulheres foram se tornando público
determinante na construção da literatura e da imprensa nacional. E não apenas público,
porquanto crescerá o número de escritoras que colaboram para isso e emergirá uma
imprensa feminina, editada, escrita e dirigida por e para mulheres.
ABRANTES, A. Do álbum de família à vitrine impressa: trajetos de retratos (PB, 1920),
Revista Temas em Educação, n. 24, 2015 (adaptado).
O registro das atividades descritas associa a inserção da figura feminina nos espaços de
leitura e escrita do Segundo Reinado ao(à)
A)
surgimento de novas práticas culturais.
B)
contestação de antigos hábitos masculinos.
C)
valorização de recentes publicações juvenis.
D)
circulação de variados manuais pedagógicos.
E)
aparecimento de diversas editoras comerciais.
Questão 54
Os caixeiros do comércio a retalho do Rio de Janeiro estiveram entre as primeiras
categorias de trabalhadores a se organizar em associações e a exigir a intervenção dos
poderes públicos na mediação de suas lutas por direitos. Na década de 1880, os caixeiros
participaram da arena política e ganharam as ruas com vários outros, como os
republicanos e os abolicionistas.
POPINIGIS, F. “Todas as liberdades são irmãs”: os caixeiros e as lutas dos trabalhadores por direitos
entre o Império e a República. Estudos Históricos, n. 59, set.-dez. 2016 (adaptado).
A atuação dos trabalhadores mencionados no texto representou, na capital do Império,
um momento de
A)
manutenção das regras patronais.
B)
desprendimento das ideias liberais.
C)
fortalecimento dos contratos laborais.
D)
consolidação das estruturas sindicais.
E)
contestação dos princípios monárquicos.
Questão 55
Solos salinos ou alomórficos apresentam como característica comum uma
concentração muito alta de sais solúveis e/ou de sódio trocável. Eles ocorrem nos locais
mais baixos do relevo, em regiões áridas e semiáridas e próximas do mar. Em regiões
semiáridas, por exemplo, o polígono das secas do Nordeste brasileiro, os locais menos
elevados recebem água que se escoa dos declives adjacentes, durante as chuvas que
caem em alguns meses do ano. Essa água traz soluções de sais minerais e evapora-se
rapidamente antes de infiltrar-se totalmente, havendo então, cada vez que esse processo
é repetido, um pequeno acúmulo de sais no horizonte superficial que, com o passar dos
anos, provoca a salinização do solo. Nas últimas décadas, a expansão das atividades
agrícolas na região tem ampliado esse processo.
LEPSCH, I. F. Solos: formação e conservação. São Paulo: Melhoramentos, 1993 (adaptado).
As atividades agrícolas, desenvolvidas na região mencionada, intensificam o problema
ambiental exposto ao
A)
realizar florestamentos de pinus, desrespeitando a prática do pousio.
B)
utilizar sistemas de irrigação, desprezando uma drenagem adequada.
C)
instalar açudes nos grotões, retardando a velocidade da vazão fluvial.
D)
desmatar áreas de preservação permanente, causando assoreamento.
E)
aplicar fertilizantes de origem orgânica, modificando a química da terra.
Questão 56
TEXTO I
CAZO. Disponível em: www.humorpolitico.com.br. Acesso em: 21 nov. 2021 (adaptado).
TEXTO II
É como se os problemas fossem criados pela pandemia quando, em verdade, isso só
demonstra o quanto eles sofrem uma tentativa de serem naturalizados. Eles estavam lá,
empurrados para debaixo de vários tapetes. Diversos levantamentos realizados indicam
que parcela significativa dos estudantes não têm acesso à internet em suas casas, não
têm computadores; têm celulares, mas com pacotes baratos que não permitem assistir a
todas as aulas. E, caso tenham celulares e dados, pergunta-se: É possível elaborar um
texto no celular? É possível interagir na aula remota pelo celular?
ASSIS, A. E. S. Q. Educação e pandemia. Educação em Revista, n. 37, 2021 (adaptado).
A crítica contida no texto e na figura evidencia o seguinte aspecto da sociedade
contemporânea:
A)
Exclusão social.
B)
Expansão digital.
C)
Manifestação cultural.
D)
Organização espacial.
E)
Valorização intelectual.
Questão 57
O leproso é visto dentro de uma prática da rejeição, do exílio-cerca; deixa-se que se
perca lá dentro como numa massa que não tem muita importância diferenciar; os
pestilentos são considerados num policiamento tático meticuloso onde as diferenciações
individuais são os efeitos limitantes de um poder que se multiplica, se articula e se
subdivide. O grande fechamento por um lado; o bom treinamento por outro. A lepra e sua
divisão; a peste e seus recortes. Uma é marcada; a outra, analisada e repartida. O exílio
do leproso e a prisão da peste não trazem consigo o mesmo sonho político.
FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.
Os modelos autoritários descritos no texto apontam para um sistema de controle que se
baseia no(a):
A)
Formação de sociedade disciplinar.
B)
Flexibilização do regramento social.
C)
Banimento da autoridade repressora.
D)
Condenação da degradação humana.
E)
Hierarquização da burocracia estatal.
Questão 58
TEXTO I
Em março de 1889, quando apareceram as primeiras romarias atraídas pelos
milagres da beata Maria de Araújo, Juazeiro inseriu-se no rol da fundação do espaço
religioso. Construía-se mais um centro, como Aparecida do Norte, Canindé ou Lourdes.
RAMOS, F. R. L. O meio do mundo: território sagrado em Juazeiro do Padre Cícero.
Fortaleza: Imprensa Universitária, 2014.
TEXTO II
Não sabemos ao certo quantas pessoas estavam presentes na capela no momento
em que a hóstia sangrou na boca de Maria de Araújo. O Padre Cícero nos conta que o
fato surpreendeu não só aos presentes, mas a própria beata parecia atordoada com o
ocorrido. O fenômeno continuou acontecendo todas as quartas e sextas na Capela de
Nossa Senhora das Dores a partir daquele dia. Os paninhos manchados do sangue que
escorria da hóstia e da boca da beata, a princípio, ficaram sob a guarda do Padre Cícero,
mas logo foram expostos à visitação pública e, além disso, o sangramento foi proclamado
como milagre sem o conhecimento e sem a autorização do bispo diocesano.
NOBRE, E. Incêndios da alma. Rio de Janeiro: Multifoco, 2016 (adaptado).
As práticas religiosas mencionadas nos textos estão associadas, respectivamente, à:
A)
Delimitação de paisagens urbanas e abandono de componentes espiritualistas.
B)
Demarcação de patrimônios afetivos e apropriação de elementos judaizantes.
C)
Expansão de fronteiras regionais e subjetivação do cristianismo medieval.
D)
Circunscrição de bens simbólicos e admissão de cerimônias ecumênicas.
E)
Criação de lugares místicos e experiências do catolicismo popular.
Questão 59
Em 2003, teve início o Programa de Aquisição de Alimentos e, com ele, várias
mudanças na perspectiva dos mercados institucionais. Trata-se do primeiro programa de
compras públicas com uma orientação exclusiva para a agricultura familiar, articulando-a
explicitamente com a segurança alimentar e nutricional. O Programa é destinado à
aquisição de produtos agropecuários produzidos por agricultores enquadrados no
Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), incluídas aqui as
categorias: assentados da reforma agrária, trabalhadores rurais sem terra, acampados,
quilombolas, agroextrativistas, famílias atingidas por barragens e comunidades indígenas.
GRISA, C.; ISOPO, S. P. Dez anos de PAA: as contribuições e os desafios para o desenvolvimento rural. In: GRISA,
C.; SCHNEIDER, S. (Org.). Políticas públicas de desenvolvimento rural no Brasil. Porto Alegre: UFRGS, 2015.
A ação governamental descrita constitui-se uma importante conquista para os pequenos
produtores em virtude da:
A)
Inovação tecnológica.
B)
Reestruturação fundiária.
C)
Comercialização garantida.
D)
Eliminação no custo do frete.
E)
Negociação na bolsa de valores.
Questão 60
Um experimento denominado FunFit foi desenvolvido com o objetivo de fazer com
que os membros de uma comunidade local se tornassem mais ativos fisicamente. Todos
os participantes do estudo foram vinculados a dois outros membros da comunidade que
receberiam pequenos incentivos em dinheiro para serem estimulados a aumentar a sua
atividade física, que era medida por acelerômetros nos celulares fornecidos pelo estado.
Assim, se a pessoa andasse mais do que o habitual, seus conhecidos receberiam o
dinheiro. Os resultados foram assombrosos: o esquema mostrou-se de quatro a oito
vezes mais eficaz do que o método de oferecer incentivos individuais.
MOROZOV, E. Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política. São Paulo: Ubu, 2018 (adaptado).
Contrariando a visão prevalente sobre o impacto tecnológico nas relações humanas, o
texto revela que os celulares podem desempenhar uma função
A)
recreativa, promovendo o lazer em redes integradas.
B)
social, estimulando a reciprocidade por meios digitais.
C)
laboral, convertendo o desenvolvedor em usuário final.
D)
comercial, direcionando a escolha por produtos industrializados.
E)
cognitiva, favorecendo a aprendizagem pelas ferramentas virtuais.
Questão 61
A dublagem é o novo campo a ser explorado pela inteligência artificial, e há
empresas dedicadas a fazer com que as vozes originais de atores sejam transpostas para
outros idiomas. A novidade reforça a tendência da automação de postos de trabalho nas
mais diversas áreas. Tem potencial para facilitar a vida de estúdios e produtoras e, ao
mesmo tempo, tornar mais escassas as oportunidades para dubladores e atores que
trabalham com isso.
GAGLIONI, C. Disponível em: www.nexojornal.com.br. Acesso em: 25 out. 2021.
A consequência da mudança tecnológica apresentada no texto é a
A)
proteção da economia nacional.
B)
valorização da cultura tradicional.
C)
diminuição da formação acadêmica.
D)
estagnação da manifestação artística.
E)
ampliação do desemprego estrutural.
Questão 62
Brasil e Argentina chegaram a um acordo para a redução em 10% da Tarifa Externa
Comum (TEC) do Mercosul. O consenso foi alcançado durante negociação entre o
ministro das Relações Exteriores do Brasil e o seu equivalente argentino, no Palácio do
Itamaraty, em Brasília, no início do mês de outubro de 2021. A redução da TEC é um
antigo desejo do Brasil, que pretende abrir mais sua economia e, com isso, ajudar a
controlar a inflação. Já a Argentina temia que a medida pudesse afetar sua produção
industrial. O acordo vai abranger uma ampla gama de produtos e ainda será apresentado
ao Paraguai e Uruguai, para que seja formalizado.
Brasil e Argentina fecham acordo para corte de 10% na tarifa do Mercosul.
Disponível em: https://oglobo.globo.com. Acesso em: 8 out. 2021 (adaptado).
A necessidade de negociação diplomática para viabilizar o acordo tarifário mencionado é
explicada pela seguinte característica do Mercosul:
A)
Limitação da circulação financeira.
B)
Padronização da política monetária.
C)
Funcionamento da união aduaneira.
D)
Dependência da exportação agrícola.
E)
Equivalência da legislação trabalhista.
Questão 63
Ainda que a fome ocorrida na Itália em 536 tenha origem nos eventos climáticos,
suas implicações são tanto políticas quanto econômicas. Nos primeiros séculos da Idade
Média, o auxílio aos famintos se inscreve no domínio da gestão pública, mesmo quando a
ação de seus agentes é apresentada sob o ângulo da piedade e da caridade individuais,
como é o caso da Gália merovíngia. Assim, o fato de que as respostas à fome são
mostradas, na Gália, como o fruto de iniciativas pessoais fundadas no imperativo da
caridade deriva da natureza das fontes do século VI.
SILVA, M. C. Os agentes públicos e a fome nos primeiros séculos da Idade Média.
Varia Historia, n. 60, set.-dez. 2016 (adaptado).
Na conjuntura histórica destacada no texto, o dever de agir em face da situação de crise
apresentada pertencia à jurisdição
A)
da nobreza, proveniente da obrigação de proteção ao campesinato livre.
B)
da realeza, decorrente do conceito de governo subjacente à monarquia cristã.
C)
dos mosteiros, resultante do caráter fraternal afirmado nas regras monásticas.
D)
dos bispados, consequente da participação dos clérigos nos assuntos
comunitários.
E)
das corporações, procedente do padrão assistencialista previsto nas normas
estatutárias.
Questão 64
As forças tectônicas dentro da litosfera, controladas pelo calor interno das
profundezas, geram terremotos, erupções e soerguimento de montanhas. As forças
meteorológicas dentro da atmosfera e da hidrosfera, controladas pelo calor do Sol,
produzem tempestades, inundações, geleiras e outros agentes de erosão.
PRESS, F. et al. Para entender a Terra. Porto Alegre: Bookman, 2006 (adaptado).
A interação dinâmica entre as forças naturais citadas favorece a ocupação do espaço
geográfico, na medida em que provoca a formação de
A)
solos vulcânicos.
B)
dorsais oceânicas.
C)
relevos escarpados.
D)
superfícies lateríticas.
E)
dobramentos modernos.
Questão 65
Disponível em: https://ndmais.com.br. Acesso em: 8 out. 2021.
O ápice da ilustração se traduz por uma conduta social caracterizada pela
A)
cultura do cancelamento.
B)
prática do feminicídio.
C)
postura negacionista.
D)
ação involuntária.
E)
defesa da honra.
Questão 66
TEXTO I
A primeira grande lei educacional do Brasil, de 1827, determinava que, nas “escolas
de primeiras letras” do Império, meninos e meninas estudassem separados e tivessem
currículos diferentes. No Senado, o Visconde de Cayru foi um dos defensores de que o
currículo de matemática das garotas fosse o mais enxuto possível. Nas palavras dele, o
“belo sexo” não tinha capacidade intelectual para ir muito longe: — Sobre as contas, são
bastantes [para as meninas] as quatro espécies, que não estão fora do seu alcance e lhes
podem ser de constante uso na vida.
TEXTO II
No Senado, o único a defender publicamente que as meninas tivessem, em
matemática, um currículo idêntico ao dos meninos foi o Marquês de Santo Amaro (RJ).
Ele argumentou: — Não me parece conforme, às luzes do tempo em que vivemos,
deixarmos de facilitar às brasileiras a aquisição desses conhecimentos [mais
aprofundados de matemática]. A oposição que se manifesta não pode nascer senão do
arraigado e péssimo costume em que estavam os antigos, os quais nem queriam que
suas filhas aprendessem a ler.
WESTIN, R. Senado Notícias. Disponível em: www12.senado.leg.br. Acesso em: 20 out. 2021 (adaptado).
Os discursos expressam pontos de vista divergentes respectivamente pela oposição entre
A)
liberdade de gênero e controle social.
B)
equidade de escolha e imposição cultural.
C)
dominação de corpos e igualdade humana.
D)
geração de oportunidade e restrição profissional.
E)
exclusão de competências e participação política.
Questão 67
Após sete anos da ocupação de um terreno abandonado em Santo André, no
ABC paulista, os condomínios Novo Pinheirinho e Santos Dias foram inaugurados, com a
presença de representantes dos governos federal, estadual e municipal. A ocupação
começou em 2012 e, desde então, o movimento vinha reivindicando o direito de usufruir
do espaço para a construção de casas. A Carta Magna, em seu art. 6º, garante a todos os
brasileiros o direito à moradia.
PUTTI, A. Disponível em: www.cartacapital.com.br. Acesso em: 13 nov. 2021 (adaptado).
O texto apresenta uma estratégia usada pelo movimento social para
A)
fragilizar o poder público.
B)
fomentar a economia solidária.
C)
controlar a propriedade estatal.
D)
garantir o preceito constitucional.
E)
incentivar a especulação imobiliária.
Questão 68
TEXTO I
A Marinha identifica, na voz de Thomas Barnett, uma ampla região potencialmente
insubmissa ou simplesmente irredutível às normas gerais de funcionamento promovidas
pelos Estados Unidos e sancionadas pelo Fundo Monetário Internacional, pela
Organização Mundial do Comércio e pelo Banco Mundial. E não necessariamente por sua
consciência rebelde, mas sim, em muitos casos, pela insubstancialidade de suas
instituições estatais.
TEXTO II
CECEÑA, A. E. Hegemonias e emancipações no século XXI. Buenos Aires: Clacso, 2005.
As preocupações do governo estadunidense expressas no texto e no mapa evidenciam
uma estratégia para
A)
compartilhamento de inovações tecnológicas.
B)
promoção de independência financeira.
C)
incremento de intercâmbios culturais.
D)
ampliação de influência econômica.
E)
preservação de recursos naturais.
Questão 69
Colegas, na mente e no coração do povo, a Crimeia sempre foi uma porção
inseparável da Rússia. Essa firme convicção se baseia na verdade e na justiça e foi
passada de geração em geração, ao longo do tempo, sob quaisquer circunstâncias,
apesar de todas as drásticas mudanças que nosso país atravessou durante todo o
século XX.
Disponível em: http://g1.globo.com. Acesso em: 28 jul. 2014.
Considerando a dinâmica geopolítica subjacente ao texto, a justificativa utilizada por
Vladimir Putin, em 2014, para anexação dessa península apela para o argumento de que
A)
as populações com idioma comum devem estar submetidas à mesma autoridade
estatal.
B)
o imperialismo soviético havia se acomodado às pretensões das potências
vizinhas.
C)
os organismos transnacionais são incapazes de solucionar disputas territoriais.
D)
a integração regional supõe a livre circulação de pessoas e mercadorias.
E)
a expulsão das forças navais ocidentais garantiria a soberania nacional.
Questão 70
TEXTO I
Interseccionalidade: intercruzamento de desigualdades que gera padrões complexos de
discriminação.
TEXTO II
Disponível em: www.agenciadenoticias.ibge.gov.br. Acesso em: 2 dez. 2018.
Considerando o conceito apresentado no Texto I e os dados apresentados no Texto II, no
Brasil, são fatores que intensificam o fenômeno da discriminação:
A)
Raça e gênero.
B)
Etnia e habitação.
C)
Idade e nupcialidade.
D)
Profissão e sexualidade.
E)
Escolaridade e fecundidade.
Questão 71
O princípio básico do Estado de direito é o da eliminação do arbítrio no exercício dos
poderes públicos, com a consequente garantia de direitos dos indivíduos perante esses
poderes. Estado de direito significa que nenhum indivíduo, presidente ou cidadão comum
está acima da lei. Os governos democráticos exercem a autoridade por meio da lei e
estão eles próprios sujeitos aos constrangimentos impostos pela lei.
CANOTILHO, J. J. G. Estado de direito. Lisboa: Gradiva, 1999 (adaptado).
Nas sociedades contemporâneas, consiste em violação do princípio básico enunciado no
texto:
A)
Supressão de eleições de representantes políticos.
B)
Intervenção em áreas de vulnerabilidade pela Igreja.
C)
Disseminação de projetos sociais em universidades.
D)
Ampliação dos processos de concentração de renda.
E)
Regulamentação das relações de trabalho pelo Legislativo.
Questão 72
Brasileiros levam mais tempo de casa para o trabalho
Pesquisa do IBGE aponta que a situação é mais grave no Sudeste: 13% das pessoas
levam mais de uma hora para chegar ao trabalho. Nas regiões metropolitanas de São
Paulo e do Rio, o IBGE registrou os maiores percentuais de trabalhadores que levam
mais de uma hora no trajeto até o emprego. Quem vê o Marcelo chegar ao trabalho nem
imagina a maratona que ele enfrenta todos os dias antes das 5 h. “Acordo 4 h 30, saio de
casa 5 h, pego trem 5 h 20, chego na Central umas 6 h 50, pego ônibus e chego no
trabalho mais ou menos 7 h 10”, conta. Segundo especialista, são os mais pobres os que
moram mais longe do emprego.
Disponível em: www.portaldotransito.com.br. Acesso em: 23 nov. 2021 (adaptado).
A pesquisa desenvolvida retrata a seguinte dinâmica populacional:
A)
Fluxo de retorno.
B)
Migração interna.
C)
Mudança sazonal.
D)
Movimento pendular.
E)
Deslocamento forçado.
Questão 73
A história do Primeiro de Maio de 1890 — na França e na Europa, o primeiro de
todos os Primeiros de Maio — é, sob vários aspectos, exemplar. Resultante de um ato
político deliberado, essa manifestação ilustra o lado voluntário da construção de uma
classe — a classe operária — à qual os socialistas tentam dar uma unidade política e
cultural através daquela pedagogia da festa cujo princípio, eficácia e limites há muito
tempo tinham sido experimentados pela Revolução Francesa.
PERROT, M. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
Com base no texto, a fixação dessa data comemorativa tinha por objetivo
A)
valorizar um sentimento burguês.
B)
afirmar uma identidade coletiva.
C)
edificar uma memória nacional.
D)
criar uma comunidade cívica.
E)
definir uma tradição popular.
Questão 74
PEREIRA, E. B. et al. Atlas brasileiro de energia solar. São José dos Campos: Inpe, 2006.
Uma característica regional que justifica
o maior potencial anual médio para o
aproveitamento da energia solar é a reduzida
A)
declividade do relevo.
B)
extensão longitudinal.
C)
nebulosidade atmosférica.
D)
irregularidade pluviométrica.
E)
influência da continentalidade.
Questão 75
O povo Kambeba é o povo das águas. Os mais velhos costumam contar que o povo
nasceu de uma gota-d’água que caiu do céu em uma grande chuva. Nessa gota estavam
duas gotículas: o homem e a mulher. “Por essa narrativa e cosmologia indígena de que
nós somos o povo das águas é que o rio nos tem fundamental importância”, diz Márcia
Wayna Kambeba, mestre em Geografia e escritora. Todos os dias, ela ia com o pai
observar o rio. Ia em silêncio e, antes que tomasse para si a palavra, era interrompida.
“Ouça o rio”, o pai dizia. Depois de cerca de duas horas a ouvir as águas do Solimões, ela
mergulhava. “Confie no rio e aprenda com ele”. “Fui entender mais tarde, com meus
estudos e vivências, que meu pai estava me apresentando à sabedoria milenar do rio”.
Rios amazônicos influenciam no agro e em reservatórios do Sudeste.
Disponível em: www.uol.com.br. Acesso em: 14 out. 2021.
Pelo descrito no texto, o povo Kambeba tem o rio como um(a)
A)
objeto tombado e museográfico.
B)
herança religiosa e sacralizada.
C)
cenário bucólico e paisagístico.
D)
riqueza individual e efêmera.
E)
patrimônio cultural e afetivo.
Questão 76
Lá embaixo está o Açude Itans, com seu formigueiro a cavar a terra. É mesmo
impressionante o esforço daquele formigar de homens ao sol, lavados em suor, que não
param, em longas filas pacientes acompanhando centenas de burricos que sobem e
descem, numa ciranda comovente e silenciosa, cada burrico com duas caixas de terra no
lombo. É o labor organizado para a salvação da terra e do homem. Depois do
semideserto que tanto nos acabrunhou o espírito por falta de chuvas, o esforço destes
milhares de sertanejos, todos vestidos de brim mescla e calçando alpercatas, no combate
consciente à esterilidade da natureza, com as famílias alojadas em pequeninas casas de
taipa e telha — embrião de futura cidade — impressionava-nos profundamente.
VALLE, F. M. História do Açude Itans, município de Caicó (RN). Brasília, 1994 (adaptado).
Na construção do empreendimento descrito, destaca-se a presença de
A)
engenheiros na execução de canais fluviais.
B)
coronéis na ampliação de antigas fazendas.
C)
operários na distribuição dos recursos hídricos.
D)
trabalhadores na formação de novos espaços.
E)
negociantes na organização de redes comerciais.
Questão 77
Para os Impérios Coloniais, o problema das doenças que atingiam os escravos era
algo com que cotidianamente deparavam os senhores. Em vista disso, uma série de
obras dedicadas à administração de escravos foi publicada com vista a implementar uma
moderna gestão da mão de obra escravista em convergência com o Iluminismo. Nesse
contexto, o saber médico adquiria um papel extremamente relevante. Este era encarado
como um instrumento fundamental ao desenvolvimento colonial, dada a percepção do
impacto que as doenças tropicais causavam na população branca e nos povos
escravizados.
ABREU, J. L. N. A Colônia enferma e a saúde dos povos: a medicina das “luzes” e as
informações sobre as enfermidades da América portuguesa. História, Ciências,
Saúde – Manguinhos, n. 3, jul.-set. 2007 (adaptado).
De acordo com o texto, a importância da medicina se justifica no âmbito dos objetivos
A)
econômicos das elites.
B)
naturalistas dos viajantes.
C)
abolicionistas dos letrados.
D)
tradicionalistas dos nativos.
E)
emancipadores das metrópoles.
Questão 78
Possível trajeto do voo MH370 da Malaysia Airlines antes da queda, em 2014
Disponível em: http://imguol.com. Acesso em: 30 mar. 2014 (adaptado).
Considerando-se que a distância entre o local onde os destroços do avião foram
avistados e a cidade de Perth é de 2 cm, a escala aproximada dessa representação
cartográfica é:
A)
B)
C)
D)
E)
Questão 79
Hoje sou um ser inanimado, mas já tive vida pulsante em seivas vegetais, fui um ser
vivo; é bem verdade que do reino vegetal, mas isso não me tirou a percepção de vida
vivida como tamborete. Guardo apreço pelos meus criadores, as mãos que me fizeram,
me venderam, e pelas mulheres que me usaram para suas vendas e de tantas outras
maneiras. Essas pessoas, sim, tiveram suas subjetividades, singularidades e
pluralidades, que estão incorporadas a mim. É preciso considerar que a nossa história, de
móveis de museus, está para além da mera vinculação aos estilos e à patrimonialização
que recebemos como bem material vinculado ao patrimônio imaterial. A nossa história
está ligada aos dons individuais das pessoas e suas práticas sociais. Alguns indivíduos
consagravam-se por terem determinados requisitos, tais como o conhecimento de
modelos clássicos ou destreza nos desenhos.
FREITAS, J. M.; OLIVEIRA, L. R. Memórias de um tamborete de baiana: as muitas vozes em um objeto de museu.
Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, n. 14, maio-ago. 2020 (adaptado).
Ao descrever-se como patrimônio museológico, o objeto abordado no texto associa a sua
história às
A)
habilidades artísticas e culturais dos sujeitos.
B)
vocações religiosas e pedagógicas dos mestres.
C)
naturezas antropológica e etnográfica dos expositores.
D)
preservações arquitetônica e visual dos conservatórios.
E)
competências econômica e financeira dos comerciantes.
Questão 80
Advento da Polis, nascimento da filosofia: entre as duas ordens de fenômenos, os
vínculos são demasiado estreitos para que o pensamento racional não apareça, em suas
origens, solidário das estruturas sociais e mentais próprias da cidade grega. Assim
recolocada na história, a filosofia despoja-se desse caráter de revelação absoluta que às
vezes lhe foi atribuído, saudando, na jovem ciência dos jônios, a razão intemporal que
veio encarnar-se no Tempo. A escola de Mileto não viu nascer a Razão; ela construiu uma
Razão, uma primeira forma de racionalidade. Essa razão grega não é a razão
experimental da ciência contemporânea.
VERNANT, J. P. Origens do pensamento grego. Rio de Janeiro: Difel, 2002.
Os vínculos entre os fenômenos indicados no trecho foram fortalecidos pelo surgimento
de uma categoria de pensadores, a saber:
A)
Os epicuristas, envolvidos com o ideal de vida feliz.
B)
Os estoicos, dedicados à superação dos infortúnios.
C)
Os sofistas, comprometidos com o ensino da retórica.
D)
Os peripatéticos, empenhados na dinâmica do ensino.
E)
Os poetas rapsodos, responsáveis pela narrativa do mito.
Questão 81
Decreto-Lei n. 1 949, de 27/12/1937
Art. 1º Fica criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), diretamente
subordinado ao presidente da República.
Art. 2º O DIP tem por fim:
h) coordenar e incentivar as relações da imprensa com os poderes públicos no sentido de
maior aproximação da mesma com os fatos que se ligam aos interesses nacionais;
n) autorizar mensalmente a devolução dos depósitos efetuados pelas empresas
jornalísticas para a importação de papel para imprensa, uma vez demonstrada, a seu
juízo, a eficiência e a utilidade pública dos jornais ou periódicos por elas administrados ou
dirigidos.
BRASIL apud CARONE, E. A Terceira República (1937-1945). São Paulo: Difel, 1982 (adaptado).
Com base nos trechos do decreto, as finalidades do órgão criado permitiram ao governo
promover o(a)
A)
diversificação da opinião pública.
B)
mercantilização da cultura popular.
C)
controle das organizações sindicais.
D)
cerceamento da liberdade de expressão.
E)
privatização dos meios de comunicação.
Questão 82
Geoestatísticas de recursos naturais da Amazônia Legal. Rio de Janeiro: IBGE, 2011 (adaptado).
O mapa espacializa um recurso natural com alto potencial para ocorrência de:
A)
Abalos sísmicos periódicos.
B)
Jazidas de minerais metálicos.
C)
Reservas de combustíveis fósseis.
D)
Aquíferos sedimentares profundos.
E)
Estruturas geológicas metamórficas.
Questão 83
Nascidas no Líbano, as duas irmãs não puderam ser registradas no país, porque lá é
exigido que os nascidos sejam filhos de pais e mães libaneses. Seus pais, de
nacionalidade síria, também não puderam registrá-las no país de origem. Na Síria,
crianças só são registradas por pais oficialmente casados, o que não era o caso deles.
Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: 7 nov. 2021.
Em situações como a apresentada no texto, as pessoas ao nascerem já se encontram na
condição sociopolítica de
A)
exiladas.
B)
apátridas.
C)
foragidas.
D)
refugiadas.
E)
clandestinas.
Questão 84
TEXTO I
Uma filosofia da percepção que queira reaprender a ver o mundo restituirá à pintura e
às artes em geral seu lugar verdadeiro.
MERLEAU-PONTY, M. Conversas: 1948. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
TEXTO II
Os grandes autores de cinema nos pareceram confrontáveis não apenas com
pintores, arquitetos, músicos, mas também com pensadores. Eles pensam com imagens,
em vez de conceitos.
DELEUZE, G. Cinema 1: a imagem-movimento. São Paulo: Brasiliense, 1983 (adaptado).
De que modo os textos sustentam a existência de um saber ancorado na sensibilidade?
A)
Admitindo o belo como fenômeno transcendental.
B)
Reafirmando a vivência estética como juízo de gosto.
C)
Considerando o olhar como experiência de conhecimento.
D)
Apontando as formas de expressão como auxiliares da razão.
E)
Estabelecendo a inteligência como implicação das representações.
Questão 85
TEXTO I
Manda o Santo Ofício da Inquisição que ninguém, seja qual for seu estado, idade ou
condição, pare com carroça, caleça ou montaria nem atrapalhe com mesas ou cadeiras o
centro das ruas, que vão da Inquisição a São Domingos, nem atravesse a procissão em
ponto algum da ida ou da volta, amanhã, 19 do corrente, em que se celebrará auto de fé.
E também que nem nesse dia nem nos dos açoites ouse alguém atirar nos réus maçãs,
pedras, laranjas nem outra coisa qualquer.
PALMA, R. Anais da Inquisição de Lima. São Paulo: Edusp; Giordano, 1992 (adaptado).
TEXTO II
Como acontece em todos os ritos, o sentido do auto da fé é conferido pela sequência
dos atos que o compõem. Os lugares, as posturas, os gestos, as palavras são fixados
previamente em toda a sua complexidade. Por isso, o auto da fé apresenta momentos
fortes — durante a preparação, a encenação, o ato e a recepção — que convém seguir
em seus pormenores.
BETHENCOURT, F. História das Inquisições: Portugal, Espanha e Itália – séculos XV-XIX.
São Paulo: Cia. das Letras, 2000.
O rito mencionado nos textos demonstra a capacidade da Igreja em
A)
abrandar cerimônias de punição.
B)
favorecer anseios de violência.
C)
criticar políticas de disciplina.
D)
produzir padrões de conduta.
E)
ordenar cultos de heresia.
Questão 86
Empédocles estabelece quatro elementos corporais — fogo, ar, água e terra —, que
são eternos e que mudam aumentando e diminuindo mediante mistura e separação; mas
os princípios propriamente ditos, pelos quais aqueles são movidos, são o Amor e o Ódio.
Pois é preciso que os elementos permaneçam alternadamente em movimento, sendo ora
misturados pelo Amor, ora separados pelo Ódio.
SIMPLÍCIO. Física, 25, 21. In: Os pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
O texto propõe uma reflexão sobre o entendimento de Empédocles acerca da arché, uma
preocupação típica do pensamento pré-socrático, porque
A)
exalta a investigação filosófica.
B)
transcende ao mundo sensível.
C)
evoca a discussão cosmogônica.
D)
fundamenta as paixões humanas.
E)
corresponde à explicação mitológica.
Questão 87
Macrocefalia urbana pode ser entendida como a massiva concentração das
atividades econômicas em algumas metrópoles que propicia o desencadeamento de
processos descompassados: redirecionamento e convergência de fluxos migratórios,
déficit no número de empregos, ocupação desordenada de determinadas regiões da
cidade e estigmatização de estratos sociais, que comprometem substancialmente a
segurança pública urbana.
SANTOS, M. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos.
São Paulo: Edusp, 2004.
O processo de concentração espacial apresentado foi estimulado por qual fator
geográfico?
A)
Limitação da área ocupada.
B)
Êxodo da população do campo.
C)
Ampliação do risco habitacional.
D)
Deficiência do transporte alternativo.
E)
Crescimento da taxa de fecundidade.
Questão 88
Entretanto, nosso amigo Basso tem o ânimo alegre. Isso resulta da filosofia: estar
alegre diante da morte, forte e contente qualquer que seja o estado do corpo, sem
desfalecer, ainda que desfaleça.
SÊNECA, L. Cartas morais. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1990.
O excerto refere-se a uma carta de Sêneca na qual se apresenta como um bem
fundamental da filosofia promover a
A)
valorização de disputas dialógicas.
B)
rejeição das convenções sociais.
C)
inspiração de natureza religiosa.
D)
exaltação do sofrimento.
E)
moderação das paixões.
Questão 89
Quando os espanhóis chegaram à América, estava em seu apogeu o império
teocrático dos Incas, que estendia seu poder sobre o que hoje chamamos Peru, Bolívia e
Equador, abarcava parte da Colômbia e do Chile e alcançava até o norte argentino e a
selva brasileira; a confederação dos Astecas tinha conquistado um alto nível de eficiência
no vale do México, e no Yucatán, na América Central, a esplêndida civilização dos Maias
persistia nos povos herdeiros, organizados para o trabalho e para a guerra. Os Maias
tinham sido grandes astrônomos, mediram o tempo e o espaço com assombrosa
precisão, e tinham descoberto o valor do número zero antes de qualquer povo da história.
No museu de Lima, podem ser vistos centenas de crânios que receberam placas de ouro
e prata por parte dos cirurgiões Incas.
GALEANO, E. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 2012.
As sociedades mencionadas deixaram como legado uma diversidade de
A)
bens religiosos inspirados na matriz cristã.
B)
materiais bélicos pilhados em batalhas coloniais.
C)
heranças culturais constituídas em saberes próprios.
D)
costumes laborais moldados em estilos estrangeiros.
E)
práticas medicinais alicerçadas no conhecimento científico.
Questão 90
Em Vitória (ES), no bairro Goiabeiras, encontramos as paneleiras, mulheres que são
conhecidas pelos saberes/fazeres das tradicionais panelas de barro, ícones da culinária
capixaba. A tradição passada de mãe para filha é de origem indígena e sofreu influência
de outras etnias, como a afro e a luso. Dessa mistura, acredita-se que a fabricação das
panelas de barro já tenha 400 anos. A fabricação das panelas de barro se dá em várias
etapas, desde a obtenção de matéria-prima à confecção das panelas. As matérias-primas
tradicionalmente utilizadas são provenientes do meio natural, como: argila, retirada do
barreiro no Vale do Mulembá; madeira, atualmente proveniente das sobras da construção
civil; e tinta, extraída da casca do manguezal, o popular mangue-vermelho.
TRISTÃO, M. A educação ambiental e o pós-colonialismo. Revista de Educação, n. 53, ago. 2014.
Uma característica de práticas tradicionais como a exemplificada no texto é a vinculação
entre os recursos do mundo natural e a
A)
manutenção dos modos de vida.
B)
conservação dos plantios da roça.
C)
atualização do modelo de gestão.
D)
participação na sociedade de consumo.
E)
especialização nas etapas de produção.
Sobre esta prova
As questões desta página foram transcritas por processamento automatizado, e as respostas geradas por inteligência artificial não substituem o gabarito da instituição responsável. Pode haver erro de transcrição ou de resposta. Consulte o PDF original para conferir dúvidas.