Enunciado

Como tinha sobrenome italiano, João resolveu mudar para emplacar seu samba.
E como ia mudar o sobrenome, mudou o nome. Virou Adoniran Barbosa. O cara falava
errado, voz rouca, pinta de malandro da roça. Virou ícone da música brasileira, o mais
paulista de todos, falando errado e irritando Vinicius de Moraes, que ficou de bico
fechado depois de ouvir a música que Adoniran fez para a letra Bom dia, tristeza, de
autoria do Poetinha. Coisa de arrepiar.
Para toda essa gente que implicava, Adoniran tinha uma resposta neoerudita: “Gosto
de samba e não foi fácil, pra mim, ser aceito como compositor, porque ninguém queria
nada com as minhas letras que falavam ‘nóis vai’, ‘nóis fumo’, ‘nóis fizemo’, ‘nóis peguemo’.
Acontece que é preciso saber falar errado. Falar errado é uma arte, senão vira deboche”.
Ele sabia o que fazia. Por isso dizia que falar errado era uma arte. A sua arte.
Escolhida a dedo porque casava com seu tipo. O Samba do Arnesto é um monumento
à fala errada, assim como Tiro ao Álvaro. O erudito podia resmungar, mas o povo se
identificava.
