Enunciado
Você vende uma casa, depois de ter morado nela durante anos; você a conhece
necessariamente melhor do que qualquer comprador possível. Mas a justiça é, então,
informar o eventual comprador acerca de qualquer defeito, aparente ou não, que possa
existir nela, e mesmo, embora a lei não obrigue a tanto, acerca de algum problema
com a vizinhança. E, sem dúvida, nem todos nós fazemos isso, nem sempre, nem
completamente.
Mas quem não vê que seria justo fazê-lo e que somos injustos não o fazendo? A lei
pode ordenar essa informação ou ignorar o problema, conforme os casos; mas a justiça
sempre manda fazê-lo.
Dir-se-á que seria difícil, com tais exigências, ou pouco vantajoso, vender casas...
Pode ser. Mas onde se viu a justiça ser fácil ou vantajosa? Só o é para quem a recebe ou
dela se beneficia, e melhor para ele; mas só é uma virtude em quem a pratica ou a faz.
Devemos então renunciar nosso próprio interesse? Claro que não. Mas devemos
submetê-lo à justiça, e não o contrário. Senão? Senão, contente-se com ser rico e não
tente ainda por cima ser justo.
COMTE-SPONVILLE, A. Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
No processo de convencimento do leitor, o autor desse texto defende a ideia de que