Enunciado
O bebê de tarlatana rosa
— [...] Na terça desliguei-me do grupo e caí no mar alto da depravação, só, com uma roupa
leve por cima da pele e todos os maus instintos fustigados. De resto a cidade inteira estava
assim. É o momento em que por trás das máscaras as meninas confessam paixões aos
rapazes, é o instante em que as ligações mais secretas transparecem, em que a virgindade
é dúbia, e todos nós a achamos inútil, a honra uma caceteação, o bom senso uma fadiga.
Nesse momento tudo é possível, os maiores absurdos, os maiores crimes; nesse momento
há um riso que galvaniza os sentidos e o beijo se desata naturalmente.
Eu estava trepidante, com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida. Nada de raparigas
do galarim perfumadas e por demais conhecidas, nada do contato familiar, mas o deboche
anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar, acabar, continuar. Era ignóbil. Felizmente muita
gente sofre do mesmo mal no carnaval. RIO, J. Dentro da noite. São Paulo: Antiqua, 2002.
