Enunciado
Sim, ela sentia dentro de si um animal perfeito. Repugnava-lhe deixar um dia esse
animal solto. Por medo talvez da falta de estética. Ou receio de alguma revelação...
Não, não, — repetia-se ela — é preciso não ter medo de criar. No fundo de tudo
possivelmente o animal repugnava-lhe porque ainda havia nela o desejo de agradar e
de ser amada por alguém poderoso como a tia morta. Para depois no entanto pisá-la,
repudiá-la sem contemplações. Porque a melhor frase, sempre ainda a mais jovem, era:
a bondade me dá ânsias de vomitar. A bondade era morna e leve, cheirava a carne crua
guardada há muito tempo. Sem apodrecer inteiramente apesar de tudo. Refrescavam-
na de quando em quando, botavam um pouco de tempero, o suficiente para conservá-la
um pedaço de carne morna e quieta.
