Enunciado
O trabalho não era penoso: colar rótulos, meter vidros em
caixas, etiquetá-las, selá-las, envolvê-las em papel celofane,
branco, verde, azul, conforme o produto, separá-las em dúzias...
Era fastidioso. Para passar mais rapidamente as oito horas
havia o remédio: conversar. Era proibido, mas quem ia atrás de
proibições? O patrão vinha? Vinha o encarregado do serviço?
Calavam o bico, aplicavam-se ao trabalho. Mal viravam as
costas, voltavam a taramelar. As mãos não paravam, as línguas
não paravam. Nessas conversas intermináveis, de linguagem
solta e assuntos crus, Leniza se completou. Isabela, Afonsina,
Idália, Jurete, Deolinda – foram mestras. O mundo acabou de
se desvendar. Leniza perdeu o tom ingênuo que ainda podia ter.
Ganhou um jogar de corpo que convida, um quebrar de olhos
que promete tudo, à toa, gratuitamente. Modificou-se o timbre de
sua voz. Ficou mais quente. A própria inteligência se transformou.
Tornou-se mais aguda, mais trepidante.
