Enunciado

Conheci Bentinho e Capitu nos meus curiosos e antigos quinze anos. E os olhos de água da
jovem de Matacavalos atraíram-me, seduziram-me ao primeiro contato. Aliados ao seu jeito
de ser, flor e mistério. Mas tomou-me também a indignação diante do narrador e seu texto,
feito de acusação e vilipêndio. Sem qualquer direito de defesa. Sem acesso ao discurso,
usurpado, sutilmente, pela palavra autoritária do marido, algoz, em pele de cordeiro
vitimado. Crudelíssimo e desumano: não bastasse o que faz com a mulher, chega a desejar
a morte do próprio filho e a festejá-la com um jantar, sem qualquer remorso. No fundo, uma
pobre consciência dilacerada, um homem dividido, que busca encontrar-se na memória, e
acaba faltando-se a si mesmo. Retomei inúmeras vezes a triste história daquele amor em
desencanto. Familiarizei-me, ao longo do tempo, com a crítica do texto; poucos, muito
poucos, escapam das bem traçadas linhas do libelo condenatório; no mínimo concedem à ré
o beneplácito da dúvida: convertem-na num enigma indecifrável, seu atributo consagrador.
Eis que, diante de mais um retorno ao romance, veio a iluminação: por que não dar voz

maquiavelismo do companheiro, se converte numa das mais fascinantes criaturas do gênio
que foi Machado de Assis?
A empresa era temerária, mas escrever é sempre um risco. Apoiado no espaço de liberdade
em que habita a Literatura, arrisquei-me.
O resultado: este livro em que, além-túmulo, como Brás Cubas, a dona dos olhos de ressaca
assume, à luz do mistério da arte literária e do próprio texto do Dr. Bento Santiago, seu
discurso e sua verdade.
Para apresentar a apropriação literária que faz da obra de Machado de Assis, o autor desse
texto