Enunciado

anos. E os olhos de água da jovem de Matacavalos atraíram-me,
seduziram-me ao primeiro contato. Aliados ao seu jeito de ser, flor
e mistério. Mas tomou-me também a indignação diante do narrador
e seu texto, feito de acusação e vilipêndio. Sem qualquer direito
de defesa. Sem acesso ao discurso, usurpado, sutilmente, pela
palavra autoritária do marido, algoz, em pele de cordeiro vitimado.
Crudelíssimo e desumano: não bastasse o que faz com a mulher,
chega a desejar a morte do próprio filho e a festejá-la com um jantar,
sem qualquer remorso. No fundo, uma pobre consciência dilacerada,
um homem dividido, que busca encontrar-se na memória, e acaba
faltando-se a si mesmo. Retomei inúmeras vezes a triste história
daquele amor em desencanto. Familiarizei-me, ao longo do tempo,
com a crítica do texto; poucos, muito poucos, escapam das bem
traçadas linhas do libelo condenatório; no mínimo concedem à ré o
beneplácito da dúvida: convertem-na num enigma indecifrável, seu

iluminação: por que não dar voz plena àquela mulher, brasileira do
século XIX, que, apesar de todas as artimanhas e do maquiavelismo
do companheiro, se converte numa das mais fascinantes criaturas

dona dos olhos de ressaca assume, à luz do mistério da arte literária


Para apresentar a apropriação literária que faz da obra de
Machado de Assis, o autor desse texto