Enunciado
Enquanto estivemos entretidos com os urubus outras coisas andaram acontecendo na
cidade. A Companhia baixou novas proibições, umas inteiramente bobocas, só pelo prazer
de proibir (ninguém podia cuspir pra cima, nem carregar água em jacá, nem tapar o sol com
peneira, como se todo mundo estivesse abusando dessas esquisitices); mas outras bem
irritantes, como a de pular muro pra cortar caminho, tática que quase todo mundo que não
sofria de reumatismo vinha adotando ultimamente, principalmente os meninos. E não confiando
na proibição só, nem na força dos castigos, que eram rigorosos, a Companhia ainda mandou
fincar cacos de garrafa nos muros. Achei isso um exagero, e comentei o assunto com mamãe.
Meu pai ouviu lá do quarto e veio explicar. Disse que em épocas normais bastava uma coisa
ou outra; mas agora a Companhia não podia admitir nenhuma brecha em suas ordens; se
alguém desobedecesse à proibição podia se cortar nos cacos; se alguém conseguisse pular
um muro quebrando o corte de alguns cacos, ou jogando um couro por cima, era apanhado
pela proibição, nhoc — e fez o gesto de quem torce o pescoço de um frango. VEIGA, J. J. Sombras de reis barbudos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
Sob a perspectiva do menino que narra, os fatos ficcionais oferecem um esboço do momento
político vigente na década de 1970, aqui representado pelo