Enunciado
Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é
que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro
livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte, e quando muito, dez.
Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se
adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas
rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevia-a com a pena da galhofa e a
tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a
gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola
não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor
dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião. ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 8 ago. 2015.
No fragmento transcrito da dedicatória “Ao leitor”, em Memórias póstumas de Brás Cubas, o
autor serve-se da figura do narrador-defunto para