Enunciado
Os subúrbios do Rio de Janeiro foram a primeira coisa a
aparecer no mundo, antes mesmo dos vulcões e dos cachalotes,
antes de Portugal invadir, antes do Getúlio Vargas mandar
construir casas populares. O bairro do Queím, onde nasci e
cresci, é um deles. Aconchegado entre o Engenho Novo e
Andaraí, foi feito daquela argila primordial, que se aglutinou
em diversos formatos: cães soltos, moscas e morros, uma
estação de trem, amendoeiras e barracos e sobrados, botecos
e arsenais de guerra, armarinhos e bancas de jogo do bicho e
um terreno enorme reservado para o cemitério. Mas tudo ainda
estava vazio: faltava gente.
Não demorou. As ruas juntaram tanta poeira que o homem não
teve escolha a não ser passar a existir, para varrê-las. À tardinha,
sentar na varanda das casas e reclamar da pobreza, falar mal dos
outros e olhar para as calçadas encardidas de sol, os ônibus da
volta do trabalho sujando tudo de novo.
