O diplomático
Era solteiro, por obra das circunstâncias, não de vocação.
Em rapaz teve alguns namoricos de esquina, mas com o tempo
apareceu-lhe a comichão das grandezas, e foi isto que lhe
prolongou o celibato até os quarenta e um anos, em que o
vemos. Cobiçava alguma noiva superior a ele e à roda em que
vivia, e gastou o tempo em esperá-la. Chegou a frequentar
os bailes de um advogado célebre e rico, para quem copiava
papéis, e que o protegia muito. Tinha nos bailes a mesma
posição subalterna do escritório; passava a noite vagando
pelos corredores, espiando o salão, vendo passar as senhoras,
devorando com os olhos uma multidão de espáduas magníficas
e talhes graciosos. Invejava os homens, e copiava-os. Saía dali
excitado e resoluto. Em falta de bailes, ia às festas de igreja, onde
poderia ver algumas das primeiras moças da cidade. Também era
certo no saguão do paço imperial, em dia de cortejo, para
ver entrar as grandes damas e as pessoas da corte, ministros,
generais, diplomatas, desembargadores, e conhecia tudo e
todos, pessoas e carruagens. Voltava da festa e do cortejo,
como voltava do baile, impetuoso, ardente, capaz de arrebatar
de um lance a palma da fortuna.
O pior é que entre a espiga e a mão há o tal muro do poeta,
e o Rangel não era homem de saltar muros. De imaginação fazia
tudo, raptava mulheres e destruía cidades. Mais de uma vez foi,
consigo mesmo, ministro de Estado, e fartou-se de cortesias e
decretos. Chegou ao extremo de aclamar-se imperador, um dia,
dois de dezembro, ao voltar da parada no Largo do Paço; imaginou
para isso uma revolução em que derramou algum sangue, pouco,
e uma ditadura benéfica, em que apenas vingou alguns pequenos
desgostos de escrevente. Cá fora, porém, todas as suas proezas
eram fábulas. Na realidade, era pacato e discreto.
ASSIS, M. de. 50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Cia. das Letras, 2007.
O trecho desse conto de Machado de Assis manifesta o ideário
realista do século XIX ao