A 13 de fevereiro de 1946, Graciliano Ramos escreve uma carta a Cândido Portinari
relembrando uma visita que lhe fizera quando tivera a ocasião de apreciar algumas telas da
série Retirantes. Diz o escritor alagoano:
Caríssimo Portinari:
A sua carta chegou muito atrasada, e receio que esta resposta já não o ache fixando na tela
a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos
pessimistas e exibimos deformações; contudo, as deformações e essa miséria existem fora
da arte e são cultivadas pelos que nos censuram. [...]
Dos quadros que você me mostrou quando almocei no Cosme Velho pela última vez, o que
mais me comoveu foi aquela mãe com a criança morta. Saí de sua casa com um
pensamento horrível: numa sociedade sem classes e sem miséria, seria possível fazer-se
aquilo? Numa vida tranquila e feliz, que espécie de arte surgiria? Chego a pensar que
teríamos cromos, anjinhos cor-de-rosa, e isto me horroriza.
Graciliano
Histórias de ninar (adultos)
Houve um tempo — tão perto, e, ó, tão longe — em que a arte era um holofote na unha
encravada, não um campeonato de melhores esmaltes.
Raskolnikov matava velhinhas, a família de Gregor Samsa o assassinava a "maçãzadas",
Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis) é o retrato mais perfeito de tudo
o que tem de pior na sociedade brasileira, uma sequência tristemente hilária de ações
moralmente condenáveis, atitudes pusilânimes, cálculos mesquinhos e maus passos
cretinos.
A literatura, o cinema e o teatro vêm se transformando num exercício de lacração: o mal
está sempre no outro, os protagonistas são ironmen/women da virtude. A pessoa sai da
leitura ou da sessão não com a guarda abaixada, as certezas abaladas, mais próxima da
verdade (ou, à falta de uma palavra melhor, da sinceridade): sai com suas certezas
reforçadas.
A realidade é confusa. Contraditória. Muitas vezes incompreensível. A arte é onde tentamos
nos mostrar nus, com todos os nossos defeitos.