Zapeei os canais, como há dezenas de anos faço, e pá: parei num que exibia
um episódio daquela velha família do futuro, Os Jetsons.
Nesse episódio em particular, a Jane Jetson, esposa do George, tratava de
dirigir aquele veículo voador deles. Meu queixo foi caindo à medida que as
piadinhas machistas sobre mulheres dirigirem foram se acumulando.
Impressionante! Que futuro careta aqueles roteiristas imaginavam! Seriam
incapazes de projetar algo melhor, e não apenas em termos de tecnologias,
robôs e carros voadores? Será que nossa máxima visão de futuro só atinge as
coisas, e jamais as pessoas? Como a Jane, uma mulher de 33 anos no
desenho, poderia ser o que foram as minhas bisavós?
O futuro, naquele desenho, se esqueceu de ser melhor nas relações entre as
pessoas. Aliás... tão parecido com a vida.
Fiquei de cara, como dizemos aqui, ou como dizíamos na minha adolescência,
pobre adolescência, aprendendo, sem querer e sem muita defesa, um futuro
tão besta quanto o passado.
Masculino e feminino são campos escorregadios que só se definem por oposição,
sempre incompleta, um do outro. São formações imaginárias que buscam
produzir uma diferença radical e complementar onde só existem, de fato,
mínimas diferenças. O resto é questão de estilo. Até pelo menos a segunda
metade do século 19, o divisor de águas era claro: os homens ocupavam o
espaço público. As mulheres tratavam da vida privada. Privada de quê? De
visibilidade, diria Hannah Arendt. De visibilidade pública. Do que as mulheres
estiveram privadas até o século 20 foi de presença pública manifesta não em
imagem, mas em palavra. A palavra feminina, reservada ao espaço doméstico,
não produzia diferença na vida social.